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GABI E O “PENTACOSTA”

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            – Tia! Tia! – gritando, entrou correndo porta adentro, a pequena Gabi.

            – Minha criança! O que foi? O que houve? – agachei-me a sua frente, acariciando seu rosto e seus cabelos, tentando acalmá-la.

            – Tia! É amanhã! A senhola tem que se aplessá! – respondeu-me na linguagem infantil.

            – Ei linda! Olhe para mim… Respire… Se acalme.

            – Mas tia! A senhola não tá entendo! – sacudindo nervosamente as duas mãozinhas gordas com as palmas voltadas para cima.

            – Claro que não estou entendendo. Porque essa pressa toda? O que aconteceu?

            – Ele chega amanhã, tia! – disse quase chorando.

            – Ele quem, princesa?

            – O pentacosta. Minha mãe disse que amanhã é o dia dele e que nesse dia muitas coisas acontecelam.

            – Hã? Quem chegará amanhã? – a partir desse momento entendi o porquê dessa grande confusão que Gabi havia feito e tentava não rir.

            Sentei no tapete peludo e puxei-a para perto de mim e disse-lhe suavemente:

            – Meu bem! Não precisa ficar amedrontada. Vou tentar lhe explicar. Amanhã é o dia de Pentecostes. Pentecostes era uma festa!

            – Festa?

            – Sim. As pessoas se reuniram na cidade de Jerusalém para celebrar a colheita e agradecer a Deus pela comida providenciada. E nesse dia, há muito tempo atrás, os amigos de Jesus estavam reunidos conversando numa casa em Jerusalém. De repente, o Espírito Santo veio até eles e fez com que eles falassem em outras línguas. Lembra que nós já conversamos sobre o Espírito Santo?

            – Só lembo um pouquinho.

            – Vou te relembrar: naquele dia eu falei que se você tem Deus no teu coraçãozinho é por força do Espírito Santo; se você tem um dom é por força do Espírito Santo…

            – Tia! Eu tenho algum dom? – interrompeu-me.

            – Pequena! Você tem um montão assim ó de dom – fiz um gesto com os dois braços bem abertos formando um grande círculo – e um deles é fazer aos outros felizes.

            – Hã hã. – consentiu sorrindo.

            – Então… Você pode realizar um montão de atividades e são todas por força do Espírito Santo! O Espírito Santo se manifesta em cada pessoa de maneira diferente, mas tudo com o objetivo de um bem comum. Assim ó: você tem esta perninha esquerda e esta perninha direita… E este bracinho e mais este… – disse beliscando-a delicadamente – e estes pezinhos e estas mãozinhas… Todas estas partes juntas formam o teu corpo! Assim também é com o Espírito Santo!

            – Tá. Entendi. E o pentacosta?

            – Gabi! É Pentecostes e não pentacosta!

            – Ah é! Diculpa! Conta mais!

            – Bem, nessa cidade – Jerusalém – estavam pessoas de vários lugares que vieram participar da festa e que falavam diversas línguas. Ficaram confusos e até espantados quando perceberam que os amigos de Jesus estavam falando diversas línguas!

            – Conta mais! Conta mais!

            – À noite, Jesus chegou para conversar com seus amigos que ficaram alegres ao revê-lo. E sabe qual foi a primeira coisa que ele desejou para seus amigos?

            – Não sei. Qual foi?

            – Ele desejou a paz!

            – A paz?

            – Sim. A paz. A paz é a plenitude da vida. Se estivermos em paz conosco, estaremos plenos. A humanidade é carente de paz e essa é uma possibilidade de devolver aos medrosos a coragem para gritar que têm Deus no coração. Talvez a paz esteja cada vez mais longe porque não somos corajosos suficientemente para levar adiante o projeto de Jesus. 

            – Ah que lindo! O que mais tia? O que mais?

            – Bem… Soprou sobre eles o Espírito Santo e disse que a partir desse dia, eles deveriam sair pelo mundo e cumprir uma missão.

            – Qual missão?

            – De perdoar os pecados.

            – Assim como o pade faz?

            – Assim como o padre faz.

            – Foi Jesus quem mandou fazer isso?

            – Sim! Assim como Deus enviou Jesus, Jesus enviou seus amigos! Esses amigos se espalharam pelo mundo durante séculos e até hoje essa missão continua: animar a comunidade a viver a reconciliação.

            – Re-con-ci-li-a-ção? Eu ouvi essa palava lá em casa… Do meu pai e da minha mãe…

            – É… Eu soube… É uma palavra um pouco difícil para você pronunciar, mas pode ser substituída por paz e harmonia. Que tal?

            – E aleguia!

            – E alegria! Isso mesmo!

            – Paz, hamonia e aleguia! E todos voltam a sorri assim como meu pai e minha mãe.

            – Sim! Com o Espírito Santo tudo é possível! É uma força que cria e renova o íntimo das pessoas. É o mesmo Espírito que sustentou a missão de Jesus para realizar o projeto de Deus.

            – Mas tia! As pessoas guitam no tânsito, bigam na escolinha… Isso é tiste

            – Criança… Nossa sociedade está marcada pela intolerância e violência, mas você, eu e toda a comunidade, estamos convidados a fazer parte dessa corrente do bem: levar esses valores que fazem parte da comunidade cristã – paz, harmonia, alegria e reconciliação.

            – Tia! Eu quelo fazê pati dessa colente do bem! – disse isso e saiu correndo porta a fora.

            – Linda! Aonde você vai com tanta pressa?

            – Vou contá essa estólia plá minha mãe e fazê ela sorri! – respondeu-me gritando lá do fundo do corredor.

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com

Simone
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A VIDENTE

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            Fernanda e Tânia são colegas no mesmo escritório. No final de semana saem para festas, bares ou pizzarias. Numa dessas festas, conheceram um rapaz magrinho com cerca de dezessete anos, moreno, barba rala, tatuagem nos braços, brinco numa das orelhas. Suas vestimentas destoavam do restante dos outros homens já que era aniversário de um jovem advogado e este havia convidado colegas do Forum e do Tribunal de Justiça. Os convidados e o aniversariante trajavam calça, camisa e sapatos sociais, alguns ainda estavam com blazer; outros, mais acalorados, de mangas de camisa. Conforme o tempo foi passando, a conversa fluindo, o volume das conversas e o calor foram aumentando, as mangas das camisas foram sendo enroladas nos braços, mas isso não diminuía a elegância dos advogados.

           

            O rapaz magrinho estava de tênis velho, calça jeans, camiseta muito usada e boné com a aba virada para trás. Tânia notou a diferença, mas não se importou. Fernanda notou e ficou com um pé atrás.

            – Você vai dizer que sou preconceituosa, mas esse rapaz aí é bem estranho, não? – diz Fernanda apontando o magrinho com o queixo.

           

            – É… Achei que ele é um estranho neste grupo, mas no grupo dele não destoaria nadica.

            – E qual é o grupo dele?

            – Ora Fer, percebe-se de cara que ele é um morador de uma comunidade pobre, né? – responde a intelectual Tânia.

            – Mas até que é bem bonitinho…

            – Hã hã. Venha comigo. – fala Tânia, já puxando a tímida Fernanda pelo braço e encaminhando-se até o magrinho.

            Contando com o desembaraço de Tânia, logo os três novos amigos já estavam em animada conversa. O papo não fluiu com temas de alto padrão, tendo em vista que a diferença cultural era grande, mas o que fez com que as moças permanecessem na prosa foi o que ouviram do magrinho.

            Fernanda e Tânia não se lembram de como foram parar nesse assunto, mas após alguns drinques, estavam cochichando sobre adivinhar o futuro. E o magrinho disse:

            – Minha avó é vidente! E das boas!

 

            – É? – gritaram as duas.

            – Vixe se é. Tem um montão de freguesas que saem daqui das grãfinagens e vão lá pedir conselho para a velha.

            – Ah Tânia! Sempre tive vontade de fazer umas perguntinhas para alguma vidente, mas você sabe, né? Sou uma medrosa. – disse Fernanda timidamente.

           

            – Onde mora sua avó? – quis saber Tânia.

            – É logo ali depois dos trilhos. Querem ir lá agora? Ela vai dormir sempre por volta da meia noite. É cedo ainda! Levo vocês lá.

            As duas se olham. Tânia percebe o medo nos olhos da amiga. É o medo do desconhecido, da escuridão.

 

           

            – Vamos sua boba. Não temos nada a perder. Essa é sua oportunidade. – fala Tânia, a despachada.

            Os três saem do clarão da festa, para a escuridão da rua. Caminham um quarteirão, atravessam os trilhos do trem, viram a esquerda e ali já não tem mais asfalto e nem calçamento nas ruas. São ruas de terra batida. Caminham mais uns quatro quarteirões. A escuridão é quase total, já que a maioria das lâmpadas dos postes de iluminação pública está queimada.

           

             – Falta muito? – indaga Fernanda com os olhos arregalados, já quase se arrependendo desse passeio noturno.

            – Não. Já estamos quase chegando. Estão vendo aquela casa lá? É a casa das primas! Minha avó mora quase em frente – diz o magrinho apontando para uma casa vermelha com o muro vermelho.

 

           

            – Suas primas? – quis saber Fernanda.

            – Não, sua boba! – responde rindo sua amiga Tânia. – Casa das primas é como se chama a casa das quengas, das mulheres da vida… Entendeu?

            Os três caminham mais um pouco e chegam numa casa bem humilde, com pintura gasta pelo tempo, com o muro e as paredes sujas. O magrinho abriu o portão velho de madeira e foram entrando num corredor escuro ao lado da casa, até chegar na porta dos fundos que estava aberta. Entraram.

            Ali encontraram uma sala pequena, iluminada por uma fraca luz amarela. Calor. Muito calor. Cheiro de comida e suor. Sofá rasgado coberto por uma manta velha, mesa para refeições com quatro cadeiras. Tudo velho e pobre. No fogão velho, a mãe do rapaz magrinho terminava de esquentar o leite e preparar as mamadeiras dos gêmeos.

            – Chegou? Demorou ein? Tava boa a festa dos bacanas? – a mãe perguntou já levando as mamadeiras e as crianças para o quarto, sem nem esperar pela resposta do magrinho.

           

            – Vó! Trouxe duas amigas que querem conhecer a senhora. – diz o magrinho dirigindo-se para uma senhora numa cadeira de balanço.

            – Oh! Que lindas suas amigas! Venham meninas! Aproximem-se! Não precisam ter medo desta velha feia! – diz rindo, com hálito de alho e mostrando a boca sem dentes. A avó era magra no rosto enrugado e gorda da cintura para baixo. Usava uma blusa estampada bem colorida, com babados nas mangas curtas e no busto; saia vermelha, longa e rodada. Nos pés, chinelos corroídos pelo tempo. Seus cabelos grisalhos e desgrenhados estavam presos num coque quase desmanchado.

           

            Depois dos cumprimentos, a avó se levanta e diz:

            – Me acompanhem. Vamos até minha salinha preferida. É meu “atelier”, como disse uma freguesa.

            Encaminham-se para outra peça da casa, que não tem porta, mas é dividida por uma cortina de chita colorida, suja e ensebada. A avó segura a pobre cortina para as jovens entrarem.

 

            – É agora… – pensa Fernanda. – Não vejo a hora de tudo terminar e sair daqui correndo. Não gostei nada deste lugar. Povo meio estranho. Estou com medo.

            – É agora… – pensa Tânia. – Nunca acreditei em videntes, mas já que estou aqui, porque não? Aí deve ter uma mesinha com uma bola de cristal, velas e baralho…

            Entram na sala e se deparam com uma jovem magra que está experimentando um vestido bege com listas douradas.

            – Gostaram de meu vestido novo? Está ficando lindo, não? Minha mãe é que está costurando para eu ir numa festa! – diz sorridente a irmã caçula do rapaz magrinho, dando uma volta em torno de si, fingindo estar desfilando.

            – Lindíssimo! – as moças concordam.

 

(Continua mais tarde ou você pode terminá-lo para mim. Aceita o desafio? Aguardo sugestões para o final).

 

 

 

 

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com

           

           

 

MINHA CONVERSA COM GABI

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simonepossasfontana

criança balançando 1

– Toc, toc, toc.

– Pode entrar Gabi. Estou na cozinha.

Gabi é uma menininha muito esperta, filha da vizinha e que está acostumada a bater na minha porta, antes de sair para a escola. Entra correndo em direção à cadeira onde estou sentada.

Tia! Óia o que eu touce pala a senhola! – diz sorridente na linguagem das crianças, sacudindo uma nota de R$ 10,00. – É da minha mesada. Quelo ajudá na campanha da manicule.

Abri os braços e dei-lhe um abraço bem apertado e demorado.

Tia, a senhola tá tisti?

mulher aflita

– Não querida. Só pensativa.

Mas o olho tá tisti. – insiste ela.

– Não pequena. É que entrou um cisco no meu olho.

A senhola vai quelê? É pouco?

– Claro que vou aceitar, Gabi. Com muita honra! Não é pouco não!

Mas ainda acho que a…

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A PEDAGOGIA DE PESTALOZZI

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            Não sou perita em educação, por isso não opino sobre, mas posso pensar sobre. Nada me impede, num país democrático em que vivo, de ler e pensar sobre o assunto.

            Isso consegui logo após ler PESTALOZZI – UM ROMANCE PEDAGÓGICO, do psicanalista Walter Oliveira Alves. Com essa leitura conheci um pouco mais sobre o pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi e seus métodos de educação.

 

            Aprendi que Pestalozzi, quando criança, em Zurique, por volta dos anos de 1750, mesmo sendo retraído, aprendia muito depressa, pois prestava especial atenção nas aulas que lhe despertavam interesse, aprendendo com rara facilidade. E isso o fez pensar sobre o futuro da educação…

            Quando adulto via na educação, o único remédio eficaz para os males do mundo. Mas os obstáculos estavam na própria sociedade, nos costumes, nas escolas, na Igreja.

           

            A sociedade estava corrompida pelos maus costumes e pelos preconceitos; as escolas ensinavam palavras e a Igreja ensinava dogmas que deveriam ser aceitos sem contestação. Era necessária uma educação que levasse a criança a compreender os fatos da vida. A educação tinha que partir das impressões pessoais que levavam à verdadeira compreensão e as palavras e explicações deveriam vir em seguida. A religião deveria ser compreendida e sentida, e não aceita com dogmas impostos.

            Esse é o germe do que seria chamado, mais tarde, de método intuitivo, em que a criança é levada a trabalhar com todos os sentidos, com a inteligência e com o sentimento simultaneamente. A criança observa – que inclui olhar, ouvir, tocar, comparar e analisar – determinado objeto ou fenômeno utilizando os órgãos dos sentidos, a inteligência e o sentimento, até compreender exatamente do que se trata. Depois, se expressa pela linguagem oral e escrita, pelos desenhos, figuras, modelagem e até pela dramatização.

 

           

            A criança deve ser capaz de pensar, sentir e agir para formar os conceitos por si mesma, pela sua própria experiência, e não por ensinamentos dados prontos. O educador não vai apresentar definições à criança, mas levá-la a perceber, compreender e sentir o real significado do conteúdo em estudo.

            Em 1798 a Suíça foi invadida pelos franceses. Pestalozzi publicou diversos panfletos em que pregava a união e a paz. Exortou o governo a aplicar a justiça, a moralidade e a proporcionar a boa educação para o povo. Iniciou aí o gigantesco trabalho de resgatar a dignidade das crianças, retirando-as das ruas, dando-lhes abrigo, comida e roupas.

           

           Se tivesse usado de pressões, regulamentos, sermões, ao invés de conquistar o coração de suas crianças, ele as teria aborrecido e afastado do seu alvo. Primeiro que tudo, ele despertou nelas, nobres e puros sentimentos morais, para depois poder obter sua atenção, atividade e obediência.

            Era enérgico, mas amoroso, despertando um respeito profundo que nascia no calor do sentimento de carinho, gratidão e amor. Não apenas lecionava religião: vivia a religiosidade. Foi capaz de criar um ambiente onde reinava um sentimento elevado, confiança e fé. Deus não era louvado num altar ou templo, mas estava presente na natureza e por toda parte.

           

           As crianças recebiam uma educação abrangente, baseada no respeito e no amor, que incluía o aspecto intelectual, emocional, espiritual e físico.

            A grandeza de Pestalozzi era igual a sua humildade e simplicidade. Um gigante na dedicação, firmeza, persistência e no seu imenso amor à causa da educação e às crianças.

            Assim eram os métodos educacionais de Pestalozzi em Zurique no século XVIII. E nos dias atuais aqui no Brasil? Como anda nossa educação?

 

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

                                                                       blog: simonepossasfontana.wordpress.com

AS OITO ROSAS

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            Eram oito rosas reunidas. O dia estava perfeito: sol e calor! O que mais uma rosa poderia querer?

            Tinha rosa com pétalas amarelas, brancas, pretas e mechadas.

            Tinha rosa de todas as idades: de trinta a oitenta anos. Tinha desde a rosa exuberante por sua longa experiência de vida até a rosa novata e aprendiz.

            Tinha rosa avó, rosa mãe, rosa madrasta e rosa tia.

            Tinha rosa solteira, casada, separada, viúva e rosa namorada.

            Tinha rosa cozinheira, psicóloga, professora, funcionária pública, do lar, aposentada, artesã, pintora, tradutora, artista e política.

            Todas tinham algo em comum: o sorriso e o amor pela literatura!

           

           Tudo começou porque a rosa mais nova estava triste, pois percebera que o tempo ia passando rapidamente, ela se envolvia com afazeres diversos e não estava mais se encontrando com as outras rosas. Então resolveu chamar as rosas-amigas para uma reunião festiva com café, tapioca e muita conversa boa.

            A rosa anfitriã, afável e cordial como lhe é peculiar, conseguiu que todas as rosas se sentissem como se estivessem em seu próprio jardim! Decorou com muito carinho a mesa do lanche com as cores da Inglaterra: vermelho, azul e branco. Essas cores predominavam nas toalhas, nas louças, nos arranjos florais, nas cadeiras e até nos guardanapos e nos cartões com os nomes de cada rosa. Uniu elegância e simplicidade; graciosidade e singeleza; exuberância e candura.

            Às quatro horas da tarde do sábado, as rosas foram chegando. Cada uma trazia um “agradinho” para o lanche: queijo, doce de leite, chocolate, morangos, etc.

           

            A rosa psicóloga trouxe para a rosa anfitriã um lindo tapete de crochê confeccionado por ela mesma. Outra trouxe arranjos em origami. E todas chegavam com livros de sua autoria para trocar entre elas.

            Assim que todas chegaram, a rosa anfitriã pegou uma placa que estava na parede e mostrou para lerem. Todas aprovaram com muita alegria. Na placa estava escrito: proibido falar sobre religião e política.

            Após muitas gargalhadas, a reunião festiva prosseguiu.

            Nem todas as oito rosas se conheciam pessoalmente, claro. Algumas se conheciam apenas pela internet, mas a alegria reinava como se amigas de infância fossem. Às vezes conheciam a obra, mas não conheciam a autora! E esse encontro era a oportunidade que faltava para saber quem é ou pelo menos ter uma noção da rosa-autora.

 

           

           Todas as rosas falavam entre si, conversavam sobre tudo, desde artesanato, culinária, maquiagem e família, até relacionamentos conjugais, sexo, depressão e suicídio. E como não poderia faltar num encontro de rosas-escritoras, falaram em livros, capítulos, prefácio, editoras, etc.

            Nessa festa apareceu até um cravo! Mas esse cravo não brigou com a rosa como na cantiga popular infantil. Era um cravo estrangeiro e como ele não entendia muito bem a língua portuguesa, não se escandalizou com as conversas que ouviu!

            Ao lado da mesa do lanche, foi preparada outra onde foram colocadas as obras literárias para a troca entre as rosas. Após escolher o livro, cada rosa-leitora dirigia-se até a rosa-autora  para a sessão de dedicatória, além da apresentação de vários projetos literários das rosas poderosas e criativas, tudo registrado com fotos feitas pelo gentil cravo.

            No final, todas as sorridentes rosas reuniram-se num glamoroso e colorido ramalhete. Ou num jardim? Ah! Não importa! O que interessa é que estava tudo perfeito!

 

 

Simone Possas

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

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CALCE TÊNIS

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            Estava lendo a interessante crônica “Alexandria – A Queda”, do Francisco Marshal, no suplemento DOC do jornal Zero Hora de Porto Alegre, a qual fala de um livro chamado “A Biblioteca Desaparecida”, do Alexandre Cânfora.  Pensando sobre tudo isso: Alexandria, bibliotecas, livros, importância da leitura como fonte de desenvolvimento… Resolvi escrever um texto.

            Como eu procedo para escrever um texto? Vou juntando e largando num papel, ou melhor, no computador, palavras toscas, rústicas, soltas, que parecem sem sentido, mas são as palavras principais, essenciais. Depois que larguei todas essas palavras, formo frases e pego essas frases e junto com as palavras toscas. Para isso acontecer não posso ter interrupção; tenho que ficar concentrada. Vou formando essas frases na minha mente e vou juntando nas palavras toscas, até formar um texto.

            Até que fui interrompida:

           

            – Dona Simone o que a senhora acha de eu descongelar um peixe para o jantar de hoje?

            Não sei nem o que eu vou comer no almoço! Vou ficar preocupando-me com o jantar? – penso comigo.

            – Neguinha, estava pensando em ligar para X e Y para sairmos amanhã a noite e tomarmos uma cervejinha. O que acha?

            O que eu acho? O que eu acho é que não posso simplesmente ficar sem responder para pessoas tão queridas! Não consigo ficar concentrada num texto e deixando pessoas ao meu redor tentando falar comigo e eu colocando uma parede invisível entre nós. Não posso. Não consigo fazer isso! Facilmente desconcentro-me do texto e respondo às pessoas que estão a minha volta aguardando pela minha resposta, mas isso faz com que eu perca o fio da meada.

           

            Como fazer para retornar ao fio da meada? Tentei relembrar as frases que eu precisava juntar nas palavras toscas, mas as frases não vieram! Levantei e pensei: – Quem sabe se eu fumar um cigarro ou um charuto, servir um uísque e ir à sacada e olhar para o Mediterrâneo como vi fazer em um filme do Hemingway? Não dará certo porque aqui não tenho o Mediterrâneo. Não fumo. Uísque talvez. De vez em quando. Ou um vinho? Mas isso não iria fazer as frases voltarem à minha mente.

            O que mais posso fazer? Já sei, pensei comigo. Calçarei tênis! Isso! Vou calçar tênis e ir para a rua caminhar. Pensar na vida; pode ser que as frases voltem.

            Foi o que fiz. Coloquei o tênis e andei cerca de dez quarteirões. Fui indo… Indo… Fiquei relembrando de todas as palavras toscas e de todas as interrupções, mas as frases não vieram; as benditas frases que eu preciso juntar nas palavras toscas!

            Ao final dos dez quarteirões, já cansada de caminhar, abaixei minha cabeça quase encostando nos joelhos, dei uma esticada, uma alongada no corpo, retornei a posição inicial, respirei fundo uma meia dúzia de vezes… Enchia o pulmão e soltava… Fui me acalmando… Retornei para casa… Mais dez quarteirões de retorno. Lembrei-me das palavras toscas e não é que as frases foram surgindo?!? As frases foram se moldando na minha mente; foram se juntando nas palavras toscas e foi formando aquele texto inicial; exatamente aquele que eu queria! Pronto!

           

            Essa é uma tática superpoderosa para resolver alguns problemas: calce o tênis! Não está conseguindo dinheiro para pagar as contas? Calce tênis. Está com falta de concentração para estudar? Calce tênis. Tem alguma questão para resolver? Calce tênis. Alguma dúvida para esclarecer? Calce tênis. Está difícil de explicar? Calce tênis.

            Calce tênis e aproveite para olhar as árvores, escutar os pássaros, desejar um bom dia e conversar com as pessoas que encontrar em seu caminho.

            Calce o tênis e libere a endorfina e a serotonina que são analgésicos naturais produzidos com a atividade física, dão aquela sensação de bem estar, regulam as emoções, reduzem o estresse e a ansiedade, enfim trazem a tal felicidade!

            Eu calcei o tênis e resolvi meu problema!

           

            Retornando ao conjunto de palavras toscas, já estava quase chegando em casa e pensando:

            – Vou para o computador e jogo todo esse texto que está pronto na minha cabeça.

            Ao chegar em frente ao prédio onde moro, percebi que não tinha energia elétrica. O que será que aconteceu? O elevador não funciona. Como vou subir tantos andares pela escada após uma caminhada pesada como essa? 

            Vou dizer o que aconteceu: os danados de dois pombinhos apaixonados resolveram namorar nos fios de energia e deu um curto – ou seja lá o nome que for. Deu um estouro muito forte. Parece que queimou o transformador e a energia do prédio estava apenas em uma fase. E aí fiquei no térreo descansando e esperando a energia voltar ao normal.

            E o meu texto? Irá todo para as cucuias de novo? Do jeito que sou desconcentrada, ele certamente sumirá da minha memória rapidamente! Será um fracasso! Já ia entrar em pânico quando lembrei que estava com o celular e aproveitei-me do gravador de voz e salvei o tão esperado texto!

 

 

Simone Possas

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

DESABAFO

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            Na sexta-feira já estava triste com a situação que certas pessoas passam… Sentindo-me apática por não poder ajudar… E decepcionada com o universo!

            O final de semana chegou e permanecia pensativa e com raiva de mim e do mundo:

            – Que ódio! Porque enquanto uns são milionários outros são tão paupérrimos?  Porque enquanto uns se esbaldam em jantares exóticos com comidas que nem sei pronunciar o nome correto, outros têm de ficar em fila de bandejão aguardando comida doada por irmãos solidários? Porque enquanto uns se embriagam em festas com excesso de uísque importado, outros nem água têm para beber? Porque enquanto uns se vestem com roupas de grifes famosas e caríssimas, outros se utilizam de farrapos? Porque essas diferenças tão grandes e tão cruéis?

           

            Quanto mais pensava, mais me martirizava e, consequentemente, mais ficava indignada e triste:

            – Isso não está certo!

            Desde pequena aprendi que os extremos e o excesso não fazem bem. Tem que ser meio termo. Assim vivi. Assim me criei e concordo com esse tipo de pensamento e de vivência! Nem oito e nem oitenta! Na média. No equilíbrio das coisas! Nem tão quente e nem tão frio: morno. Nem tão baixo e nem tão alto: médio. E assim por diante.

            Aprendi que devemos manter em equilíbrio: o físico (corpo), o emocional e a mente (alma).

            Ah se esse equilíbrio acontecesse na sociedade! É essa diferença social que me incomoda e me faz sofrer! Fico com essa dor por dois motivos: primeiro por saber da existência desse desequilíbrio desumano e o segundo motivo (o mais forte deles) é por não poder ajudar; sinto-me impotente perante essas desigualdades!

           

            Estou decepcionada com a humanidade.

            A tristeza foi minimizada ouvindo as sábias palavras do mestre padre Afonso de Castro: perseverança e gratidão. CLARO! É ISSO MESMO! Não devo deixar me abater se estou desapontada com o pouco retorno obtido. Devo ser grata por ter condições de puxar a frente campanhas de pedidos de doações. Devo ser grata às pessoas que estão me incentivando. Devo ser grata às pessoas que colaboram!

            Fico muito mais tranquila sabendo que dá para amenizar a dor dos menos favorecidos com ajuda humanitária, doações de roupas, calçados, cobertores, comida, etc. Nem tudo está perdido. Feliz novamente!

 

 

 

 

 

 

Simone Possas

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)