Últimas notícias do evento

A IMPORTÂNCIA DA RECOMENDAÇÃO DE LIVROS PARA AQUISIÇÃO DO HÁBITO DA LEITURA

Postado em Atualizado em

            Através de estudos, ficou demonstrado que são três os objetivos para entender o valor do costume de ler: por prazer, para estudar e para se informar. Na leitura feita por prazer desenvolve-se a imaginação, cria-se imagens, representações e fantasias, enriquecendo o vocabulário; a leitura dirigida para o estudo é a mais exigida pelos docentes desde os primeiros conhecimentos no ensino fundamental e a leitura feita de forma relaxada e serena é uma das melhores maneiras de aquisição de informações, através de livros didáticos, artigos científicos, textos informativos, etc.

            Claro está que para efetuar qualquer um desses três tipos de leitura, deve-se adquirir o hábito, pois através dele desenvolve-se o intelecto e adquire-se conhecimento. Não precisa ser um costume monótono e invariável, existem leituras de entretenimento e diversão assim como livros técnicos. Esses últimos fornecem conhecimento sobre determinado assunto, enquanto os outros aperfeiçoam o vocabulário e incentivam a argumentação e raciocínio.

             Esse hábito da leitura deve ser inserido na vida desde criança. Os pais devem dar o exemplo lendo para ela e mostrando como pode ser divertido ter esse hábito. Além disso, podem despertar a curiosidade, ofertando livros para a criança manusear, tendo uma pequena biblioteca, criando histórias, estimulando a embarcar em aventuras e dando chance de iniciar a pensar sobre o que está contido nos livros ao falar sobre eles. Os efeitos serão: excelente qualidade no desempenho escolar, facilidade na alfabetização, pronúncia correta e fixação da grafia das palavras, facilidade na comunicação e, consequentemente, um adulto mais firme, seguro e habilitado.

            O adulto que se utilizou da leitura desde criança, está muito mais preparado para a vida, pois criou o costume de ler. Consequentemente lê muito e escreve bem. A leitura melhora a aprendizagem, incentivando a atividade da memória, aperfeiçoando a aptidão suscetível de interpretação, impulsionando o raciocínio, oportunizando ao leitor amplas noções sobre vários temas e matérias e capacitando-o a fundamentar bem suas ideias e opiniões.

             O professor, sabedor que o hábito da leitura desenvolve o intelecto e facilita a aquisição de conhecimento, deve desconstruir aquele pensamento de que a leitura é um costume monótono, pois leituras de entretenimento são tão eficazes quanto os textos técnicos, trazendo benefícios para a vida acadêmica. Deve incentivar seu aluno a ler texto que o agrade, de variedades e curiosidades com linguagem leve e divertida, diariamente. Essa leitura diária feita sem muita pretensão, relaxante, sem o “massacre” da obrigação, auxilia na memória fazendo o estudante armazenar uma maior quantidade de informações.

            Difícil tarefa para o professor, pois se defrontará com dois grupos distintos de alunos: aqueles que receberam incentivos à leitura através da influência da família e aqueles que têm ojeriza por não terem adquirido esse hábito. Seu papel então é o de incentivar a leitura demonstrando reação favorável, informando os textos adequados de acordo com a conveniência e idade deles, assim como estimulando o costume de se utilizar do livro como origem de informação e busca. Não deve pressionar nem obrigar. A leitura deve ser feita por prazer. Isso levará ao uso continuado da leitura provocando a capacidade de analisar, adquirindo conhecimento, aprendendo a debater, questionar, criticar e opinar sobre o livro.

       Em sala de aula, deve provocar o aluno para a criação e organização ou a ampliação de uma biblioteca com acervo de livros para leitura despojada, visando convencer aqueles que ainda não tem o hábito da leitura, assim como livros para pesquisa. Deve ser um local atrativo, estético e aconchegante, ter boa disposição dos livros e com acesso e manuseio facilitados. O conteúdo do acervo deve ser variado para satisfazer os diferentes leitores.

            Pode ainda propor outras atividades diversas como concursos, mural e dramatização de textos criados pelos alunos, saraus com leitura de poesias, reuniões para contar histórias, oficinas, debates, etc. Isso levará o aluno a familiarizar-se com a leitura, desenvolver a capacidade de criar, inventar e imaginar; adquirir instrução; debater ideias; aperfeiçoar o conhecimento e obter valor e distinção.

             O professor deve recomendar literatura de boa qualidade, despertando motivação, com gêneros variados que ao mesmo tempo em que são utilizados para diversão, incentivo na imaginação, com personagens atrativos, também servem para estudar, aumentar o conhecimento de outras culturas, comportamentos, posturas e valores. Será atingida assim, a finalidade de produzir um leitor que pratique com eficiência o hábito da leitura e propenso à crítica e à análise.

            É necessária e importante sua orientação para intermediar as leituras de interesse lúdico com outros ensaios narrativos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: http://www.simonepossasfontana.wordpress.com

 

Anúncios

CASQUINHA DE AMENDOIM

Postado em Atualizado em

            Olá! Aqui estou novamente: Ana, a faxineira feliz! Vou contar-lhes o que aconteceu na última segunda-feira:

            – Ana! Como você consegue varrer e assobiar ao mesmo tempo? E esse sorrisão? Está feliz por encontrar tanto lixo para varrer?

            – Ô Dona Isabel! Não vejo lixo; vejo alegria!

            – Alegria? Mulher de Deus! Onde está a alegria? Essa casquinha de amendoim torrado parece que proliferou! Estava no chão da sala, depois se espalhou para o banheiro e sacada e até nos quartos ela chegou! Pode me explicar cadê a alegria nisso? – disse minha patroa, exaltadamente.

           

            – Posso. Vou dar um exemplo: a senhora está andando na rua e encontra flores espalhadas pelo chão, que caíram de um ipê, de uma sibipiruna ou outra árvore. O que a senhora vê e pensa?

            – Vejo um monte de lixo e penso: – Nossa! Que calçada suja! Onde andará a dona dessa casa que não a varre logo!

            – Pois eu vejo um lindo tapete de flores! Onde a senhora vê lixo, vejo flores! – expliquei de maneira educada.

            – Hum…

           

            – Outro exemplo: – Se a senhora está fazendo caminhada pelas ruas da cidade e encontra uma calçada muito irregular, cheia de buracos, lajotas quebradas e com piso levantado pelas raízes das árvores. O que pensa?

            – Resmungo, falo mal e ponho a culpa nos donos das casas que não consertam as calçadas e no prefeito que não fiscaliza adequadamente para as pessoas poderem transitar com segurança. – rispidamente respondeu-me.

            – Ham ham. Pois eu vejo aquele equipamento que tem nas academias… Aquele que a senhora me explicou num dia desses… Aquele que fica no sobe-e-desce-sobe-e-desce…

            – Step?

            – Isso! Subo e desço os buracos e obstáculos das calçadas como se estivesse fazendo exercícios num step da academia!

           

            – Tá. Certo. E quanto as cascas de amendoim torrado?

            – Vejo essas casquinhas de amendoim como um sinal de alegria! Aqui neste lar teve alegria ontem, pois sei que houve reunião da família ou de amigos; se confraternizaram, deram risadas, conversaram. Já pensou encontrar uma casa sempre limpinha e brilhando? Sem casquinha no chão? Lembra casa vazia, triste, solitária, apática e depressiva! – relatei calmamente.

            – Ah! Entendi!

           

            – Sabe aqueles gritos das crianças brincando na quadra de esportes, que sempre lhe incomodam? Para mim lembra saúde! Criança que fica amuada, retraída num canto pode estar triste ou doente!

            – É. Sei disso. Você tem razão, mas esse é meu jeito! Gostaria de ser como você Ana! – sentando no confortável sofá e indicando elegantemente com umas batidinhas de mão, para eu sentar ao seu lado.

            – Não diga uma coisa dessas, Dona Isabel! Imagina! A senhora é uma arquiteta competente. Estudou muito e trabalha bastante! E eu sou uma simples faxineira!

            – Uma faxineira feliz! Como consegue?

            – Ah Dona Isabel… É como se eu tivesse recebido um convite para levar alegria aos outros! – disse-lhe humildemente.

           

            – Um convite? Como assim?

            – É… Não sei explicar direito. É como se eu tivesse essa missão: transformar as casquinhas de amendoim em alegria!

            – Mas você não tem problemas para resolver?

            – Tenho minhas necessidades, fraquezas e angústias – como todos têm!

           

            – E não fica triste nunca? – quis saber mais.

            – Fico às vezes. Hoje mesmo ainda vou ao hospital visitar minha neta, mas quero chegar alegre! Sei que lá tem médicos e enfermeiros competentes e que está recebendo o tratamento adequado. Procuro sempre ver sempre o lado bom das coisas! Mas a senhora quer saber quando fico mais triste? Quando enfrento o coração de pedra e cabeça dura de muitos. É essa dureza no coração que tento quebrar com minha alegria e otimismo.

            – É essa sua “missão”, como você diz?

            – Sim! É nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas que sinto uma vontade enorme de dar uma palavra de carinho. É para os empobrecidos e rejeitados da sociedade! – tentei explicar-lhe.

           

            – Mas isso é missão das autoridades, Ana!

            – Pode até ser, Dona Isabel, mas eu coloco essas autoridades e todos os responsáveis pelo bem comum, nas minhas orações para que sejam conduzidos na justiça e na honestidade; para que as lideranças das comunidades sejam acolhidas e valorizadas.

            – Isso é bonito de se ouvir…

            – Bonito seria se conseguisse livrar os corações da arrogância e do orgulho… Isso alimenta o desprezo por pessoas e grupos. Sei que isso não é fácil, mas queria ser uma luz na vida das pessoas… Transmitir amor…

           

            – Mas você é uma luz, minha querida! Você é uma sábia, mesmo sem ter frequentado uma universidade! – disse-me.

            – Pois é… As pessoas se admiram como a senhora e outras até se escandalizam ao ouvir falar de amor. Como uma simples faxineira pode saber usar palavras adequadas para transmitir a paz? Sou gente simples. Meu trabalho é manual; não tenho tempo para meditar e pensar em Deus, mas eu digo: para falar de amor não precisa ser especialista!

            – Estou lhe entendendo, mas você fraqueja às vezes? Pergunto porque quero mudar, mas tenho medo…

            – Enfrento obstáculos… Algumas pedras no caminho, mas é preciso superar os preconceitos, mudar a mentalidade, ver além da aparência e enxergar as pessoas como irmãs.

           

            – É muito difícil para mim… Acho que isso é para padres e freiras.

            – Aí você se enganou, pois independe de religião! Têm pessoas que ajudam aos outros fazendo arte com as mãos ao esculpir madeira, pintar, escrever, curar doentes… Outras ajudam com música e assim por diante. E eu? Aproximo-me das pessoas e conto histórias…

            -… e transforma casquinhas de amendoim em alegria! – completou alegremente.

            – Isso mesmo!

            – Como posso ser útil? – disse-me segurando minhas mãos.

            – Dona Isabel! Sua vida é um convite para ir além! Com sabedoria e no suor de cada dia, invista em favor dos outros! Desdobre-se no amor generoso!

           E continuei:

          – É importante não esquecer de agradecer. Eu AGRADEÇO A OPORTUNIDADE DE AGRADECER! E lembre-se sempre das alegrias das CASQUINHAS DE AMENDOIM.

 

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com

 

GABI E O “PENTACOSTA”

Postado em

 

            – Tia! Tia! – gritando, entrou correndo porta adentro, a pequena Gabi.

            – Minha criança! O que foi? O que houve? – agachei-me a sua frente, acariciando seu rosto e seus cabelos, tentando acalmá-la.

            – Tia! É amanhã! A senhola tem que se aplessá! – respondeu-me na linguagem infantil.

            – Ei linda! Olhe para mim… Respire… Se acalme.

            – Mas tia! A senhola não tá entendo! – sacudindo nervosamente as duas mãozinhas gordas com as palmas voltadas para cima.

            – Claro que não estou entendendo. Porque essa pressa toda? O que aconteceu?

            – Ele chega amanhã, tia! – disse quase chorando.

            – Ele quem, princesa?

            – O pentacosta. Minha mãe disse que amanhã é o dia dele e que nesse dia muitas coisas acontecelam.

            – Hã? Quem chegará amanhã? – a partir desse momento entendi o porquê dessa grande confusão que Gabi havia feito e tentava não rir.

            Sentei no tapete peludo e puxei-a para perto de mim e disse-lhe suavemente:

            – Meu bem! Não precisa ficar amedrontada. Vou tentar lhe explicar. Amanhã é o dia de Pentecostes. Pentecostes era uma festa!

            – Festa?

            – Sim. As pessoas se reuniram na cidade de Jerusalém para celebrar a colheita e agradecer a Deus pela comida providenciada. E nesse dia, há muito tempo atrás, os amigos de Jesus estavam reunidos conversando numa casa em Jerusalém. De repente, o Espírito Santo veio até eles e fez com que eles falassem em outras línguas. Lembra que nós já conversamos sobre o Espírito Santo?

            – Só lembo um pouquinho.

            – Vou te relembrar: naquele dia eu falei que se você tem Deus no teu coraçãozinho é por força do Espírito Santo; se você tem um dom é por força do Espírito Santo…

            – Tia! Eu tenho algum dom? – interrompeu-me.

            – Pequena! Você tem um montão assim ó de dom – fiz um gesto com os dois braços bem abertos formando um grande círculo – e um deles é fazer aos outros felizes.

            – Hã hã. – consentiu sorrindo.

            – Então… Você pode realizar um montão de atividades e são todas por força do Espírito Santo! O Espírito Santo se manifesta em cada pessoa de maneira diferente, mas tudo com o objetivo de um bem comum. Assim ó: você tem esta perninha esquerda e esta perninha direita… E este bracinho e mais este… – disse beliscando-a delicadamente – e estes pezinhos e estas mãozinhas… Todas estas partes juntas formam o teu corpo! Assim também é com o Espírito Santo!

            – Tá. Entendi. E o pentacosta?

            – Gabi! É Pentecostes e não pentacosta!

            – Ah é! Diculpa! Conta mais!

            – Bem, nessa cidade – Jerusalém – estavam pessoas de vários lugares que vieram participar da festa e que falavam diversas línguas. Ficaram confusos e até espantados quando perceberam que os amigos de Jesus estavam falando diversas línguas!

            – Conta mais! Conta mais!

            – À noite, Jesus chegou para conversar com seus amigos que ficaram alegres ao revê-lo. E sabe qual foi a primeira coisa que ele desejou para seus amigos?

            – Não sei. Qual foi?

            – Ele desejou a paz!

            – A paz?

            – Sim. A paz. A paz é a plenitude da vida. Se estivermos em paz conosco, estaremos plenos. A humanidade é carente de paz e essa é uma possibilidade de devolver aos medrosos a coragem para gritar que têm Deus no coração. Talvez a paz esteja cada vez mais longe porque não somos corajosos suficientemente para levar adiante o projeto de Jesus. 

            – Ah que lindo! O que mais tia? O que mais?

            – Bem… Soprou sobre eles o Espírito Santo e disse que a partir desse dia, eles deveriam sair pelo mundo e cumprir uma missão.

            – Qual missão?

            – De perdoar os pecados.

            – Assim como o pade faz?

            – Assim como o padre faz.

            – Foi Jesus quem mandou fazer isso?

            – Sim! Assim como Deus enviou Jesus, Jesus enviou seus amigos! Esses amigos se espalharam pelo mundo durante séculos e até hoje essa missão continua: animar a comunidade a viver a reconciliação.

            – Re-con-ci-li-a-ção? Eu ouvi essa palava lá em casa… Do meu pai e da minha mãe…

            – É… Eu soube… É uma palavra um pouco difícil para você pronunciar, mas pode ser substituída por paz e harmonia. Que tal?

            – E aleguia!

            – E alegria! Isso mesmo!

            – Paz, hamonia e aleguia! E todos voltam a sorri assim como meu pai e minha mãe.

            – Sim! Com o Espírito Santo tudo é possível! É uma força que cria e renova o íntimo das pessoas. É o mesmo Espírito que sustentou a missão de Jesus para realizar o projeto de Deus.

            – Mas tia! As pessoas guitam no tânsito, bigam na escolinha… Isso é tiste

            – Criança… Nossa sociedade está marcada pela intolerância e violência, mas você, eu e toda a comunidade, estamos convidados a fazer parte dessa corrente do bem: levar esses valores que fazem parte da comunidade cristã – paz, harmonia, alegria e reconciliação.

            – Tia! Eu quelo fazê pati dessa colente do bem! – disse isso e saiu correndo porta a fora.

            – Linda! Aonde você vai com tanta pressa?

            – Vou contá essa estólia plá minha mãe e fazê ela sorri! – respondeu-me gritando lá do fundo do corredor.

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com

Simone

A VIDENTE

Postado em Atualizado em

            Fernanda e Tânia são colegas no mesmo escritório. No final de semana saem para festas, bares ou pizzarias. Numa dessas festas, conheceram um rapaz magrinho com cerca de dezessete anos, moreno, barba rala, tatuagem nos braços, brinco numa das orelhas. Suas vestimentas destoavam do restante dos outros homens já que era aniversário de um jovem advogado e este havia convidado colegas do Forum e do Tribunal de Justiça. Os convidados e o aniversariante trajavam calça, camisa e sapatos sociais, alguns ainda estavam com blazer; outros, mais acalorados, de mangas de camisa. Conforme o tempo foi passando, a conversa fluindo, o volume das conversas e o calor foram aumentando, as mangas das camisas foram sendo enroladas nos braços, mas isso não diminuía a elegância dos advogados.

           

            O rapaz magrinho estava de tênis velho, calça jeans, camiseta muito usada e boné com a aba virada para trás. Tânia notou a diferença, mas não se importou. Fernanda notou e ficou com um pé atrás.

            – Você vai dizer que sou preconceituosa, mas esse rapaz aí é bem estranho, não? – diz Fernanda apontando o magrinho com o queixo.

           

            – É… Achei que ele é um estranho neste grupo, mas no grupo dele não destoaria nadica.

            – E qual é o grupo dele?

            – Ora Fer, percebe-se de cara que ele é um morador de uma comunidade pobre, né? – responde a intelectual Tânia.

            – Mas até que é bem bonitinho…

            – Hã hã. Venha comigo. – fala Tânia, já puxando a tímida Fernanda pelo braço e encaminhando-se até o magrinho.

            Contando com o desembaraço de Tânia, logo os três novos amigos já estavam em animada conversa. O papo não fluiu com temas de alto padrão, tendo em vista que a diferença cultural era grande, mas o que fez com que as moças permanecessem na prosa foi o que ouviram do magrinho.

            Fernanda e Tânia não se lembram de como foram parar nesse assunto, mas após alguns drinques, estavam cochichando sobre adivinhar o futuro. E o magrinho disse:

            – Minha avó é vidente! E das boas!

 

            – É? – gritaram as duas.

            – Vixe se é. Tem um montão de freguesas que saem daqui das grãfinagens e vão lá pedir conselho para a velha.

            – Ah Tânia! Sempre tive vontade de fazer umas perguntinhas para alguma vidente, mas você sabe, né? Sou uma medrosa. – disse Fernanda timidamente.

           

            – Onde mora sua avó? – quis saber Tânia.

            – É logo ali depois dos trilhos. Querem ir lá agora? Ela vai dormir sempre por volta da meia noite. É cedo ainda! Levo vocês lá.

            As duas se olham. Tânia percebe o medo nos olhos da amiga. É o medo do desconhecido, da escuridão.

 

           

            – Vamos sua boba. Não temos nada a perder. Essa é sua oportunidade. – fala Tânia, a despachada.

            Os três saem do clarão da festa, para a escuridão da rua. Caminham um quarteirão, atravessam os trilhos do trem, viram a esquerda e ali já não tem mais asfalto e nem calçamento nas ruas. São ruas de terra batida. Caminham mais uns quatro quarteirões. A escuridão é quase total, já que a maioria das lâmpadas dos postes de iluminação pública está queimada.

           

             – Falta muito? – indaga Fernanda com os olhos arregalados, já quase se arrependendo desse passeio noturno.

            – Não. Já estamos quase chegando. Estão vendo aquela casa lá? É a casa das primas! Minha avó mora quase em frente – diz o magrinho apontando para uma casa vermelha com o muro vermelho.

 

           

            – Suas primas? – quis saber Fernanda.

            – Não, sua boba! – responde rindo sua amiga Tânia. – Casa das primas é como se chama a casa das quengas, das mulheres da vida… Entendeu?

            Os três caminham mais um pouco e chegam numa casa bem humilde, com pintura gasta pelo tempo, com o muro e as paredes sujas. O magrinho abriu o portão velho de madeira e foram entrando num corredor escuro ao lado da casa, até chegar na porta dos fundos que estava aberta. Entraram.

            Ali encontraram uma sala pequena, iluminada por uma fraca luz amarela. Calor. Muito calor. Cheiro de comida e suor. Sofá rasgado coberto por uma manta velha, mesa para refeições com quatro cadeiras. Tudo velho e pobre. No fogão velho, a mãe do rapaz magrinho terminava de esquentar o leite e preparar as mamadeiras dos gêmeos.

            – Chegou? Demorou ein? Tava boa a festa dos bacanas? – a mãe perguntou já levando as mamadeiras e as crianças para o quarto, sem nem esperar pela resposta do magrinho.

           

            – Vó! Trouxe duas amigas que querem conhecer a senhora. – diz o magrinho dirigindo-se para uma senhora numa cadeira de balanço.

            – Oh! Que lindas suas amigas! Venham meninas! Aproximem-se! Não precisam ter medo desta velha feia! – diz rindo, com hálito de alho e mostrando a boca sem dentes. A avó era magra no rosto enrugado e gorda da cintura para baixo. Usava uma blusa estampada bem colorida, com babados nas mangas curtas e no busto; saia vermelha, longa e rodada. Nos pés, chinelos corroídos pelo tempo. Seus cabelos grisalhos e desgrenhados estavam presos num coque quase desmanchado.

           

            Depois dos cumprimentos, a avó se levanta e diz:

            – Me acompanhem. Vamos até minha salinha preferida. É meu “atelier”, como disse uma freguesa.

            Encaminham-se para outra peça da casa, que não tem porta, mas é dividida por uma cortina de chita colorida, suja e ensebada. A avó segura a pobre cortina para as jovens entrarem.

 

            – É agora… – pensa Fernanda. – Não vejo a hora de tudo terminar e sair daqui correndo. Não gostei nada deste lugar. Povo meio estranho. Estou com medo.

            – É agora… – pensa Tânia. – Nunca acreditei em videntes, mas já que estou aqui, porque não? Aí deve ter uma mesinha com uma bola de cristal, velas e baralho…

            Entram na sala e se deparam com uma jovem magra que está experimentando um vestido bege com listas douradas.

            – Gostaram de meu vestido novo? Está ficando lindo, não? Minha mãe é que está costurando para eu ir numa festa! – diz sorridente a irmã caçula do rapaz magrinho, dando uma volta em torno de si, fingindo estar desfilando.

            – Lindíssimo! – as moças concordam.

 

(Continua mais tarde ou você pode terminá-lo para mim. Aceita o desafio? Aguardo sugestões para o final).

 

 

 

 

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com

           

           

 

MINHA CONVERSA COM GABI

Postado em

simonepossasfontana

criança balançando 1

– Toc, toc, toc.

– Pode entrar Gabi. Estou na cozinha.

Gabi é uma menininha muito esperta, filha da vizinha e que está acostumada a bater na minha porta, antes de sair para a escola. Entra correndo em direção à cadeira onde estou sentada.

Tia! Óia o que eu touce pala a senhola! – diz sorridente na linguagem das crianças, sacudindo uma nota de R$ 10,00. – É da minha mesada. Quelo ajudá na campanha da manicule.

Abri os braços e dei-lhe um abraço bem apertado e demorado.

Tia, a senhola tá tisti?

mulher aflita

– Não querida. Só pensativa.

Mas o olho tá tisti. – insiste ela.

– Não pequena. É que entrou um cisco no meu olho.

A senhola vai quelê? É pouco?

– Claro que vou aceitar, Gabi. Com muita honra! Não é pouco não!

Mas ainda acho que a…

Ver o post original 375 mais palavras

A PEDAGOGIA DE PESTALOZZI

Postado em

 

            Não sou perita em educação, por isso não opino sobre, mas posso pensar sobre. Nada me impede, num país democrático em que vivo, de ler e pensar sobre o assunto.

            Isso consegui logo após ler PESTALOZZI – UM ROMANCE PEDAGÓGICO, do psicanalista Walter Oliveira Alves. Com essa leitura conheci um pouco mais sobre o pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi e seus métodos de educação.

 

            Aprendi que Pestalozzi, quando criança, em Zurique, por volta dos anos de 1750, mesmo sendo retraído, aprendia muito depressa, pois prestava especial atenção nas aulas que lhe despertavam interesse, aprendendo com rara facilidade. E isso o fez pensar sobre o futuro da educação…

            Quando adulto via na educação, o único remédio eficaz para os males do mundo. Mas os obstáculos estavam na própria sociedade, nos costumes, nas escolas, na Igreja.

           

            A sociedade estava corrompida pelos maus costumes e pelos preconceitos; as escolas ensinavam palavras e a Igreja ensinava dogmas que deveriam ser aceitos sem contestação. Era necessária uma educação que levasse a criança a compreender os fatos da vida. A educação tinha que partir das impressões pessoais que levavam à verdadeira compreensão e as palavras e explicações deveriam vir em seguida. A religião deveria ser compreendida e sentida, e não aceita com dogmas impostos.

            Esse é o germe do que seria chamado, mais tarde, de método intuitivo, em que a criança é levada a trabalhar com todos os sentidos, com a inteligência e com o sentimento simultaneamente. A criança observa – que inclui olhar, ouvir, tocar, comparar e analisar – determinado objeto ou fenômeno utilizando os órgãos dos sentidos, a inteligência e o sentimento, até compreender exatamente do que se trata. Depois, se expressa pela linguagem oral e escrita, pelos desenhos, figuras, modelagem e até pela dramatização.

 

           

            A criança deve ser capaz de pensar, sentir e agir para formar os conceitos por si mesma, pela sua própria experiência, e não por ensinamentos dados prontos. O educador não vai apresentar definições à criança, mas levá-la a perceber, compreender e sentir o real significado do conteúdo em estudo.

            Em 1798 a Suíça foi invadida pelos franceses. Pestalozzi publicou diversos panfletos em que pregava a união e a paz. Exortou o governo a aplicar a justiça, a moralidade e a proporcionar a boa educação para o povo. Iniciou aí o gigantesco trabalho de resgatar a dignidade das crianças, retirando-as das ruas, dando-lhes abrigo, comida e roupas.

           

           Se tivesse usado de pressões, regulamentos, sermões, ao invés de conquistar o coração de suas crianças, ele as teria aborrecido e afastado do seu alvo. Primeiro que tudo, ele despertou nelas, nobres e puros sentimentos morais, para depois poder obter sua atenção, atividade e obediência.

            Era enérgico, mas amoroso, despertando um respeito profundo que nascia no calor do sentimento de carinho, gratidão e amor. Não apenas lecionava religião: vivia a religiosidade. Foi capaz de criar um ambiente onde reinava um sentimento elevado, confiança e fé. Deus não era louvado num altar ou templo, mas estava presente na natureza e por toda parte.

           

           As crianças recebiam uma educação abrangente, baseada no respeito e no amor, que incluía o aspecto intelectual, emocional, espiritual e físico.

            A grandeza de Pestalozzi era igual a sua humildade e simplicidade. Um gigante na dedicação, firmeza, persistência e no seu imenso amor à causa da educação e às crianças.

            Assim eram os métodos educacionais de Pestalozzi em Zurique no século XVIII. E nos dias atuais aqui no Brasil? Como anda nossa educação?

 

 

 

Simone Possas Fontana

escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

                                                                       blog: simonepossasfontana.wordpress.com

AS OITO ROSAS

Postado em

 

            Eram oito rosas reunidas. O dia estava perfeito: sol e calor! O que mais uma rosa poderia querer?

            Tinha rosa com pétalas amarelas, brancas, pretas e mechadas.

            Tinha rosa de todas as idades: de trinta a oitenta anos. Tinha desde a rosa exuberante por sua longa experiência de vida até a rosa novata e aprendiz.

            Tinha rosa avó, rosa mãe, rosa madrasta e rosa tia.

            Tinha rosa solteira, casada, separada, viúva e rosa namorada.

            Tinha rosa cozinheira, psicóloga, professora, funcionária pública, do lar, aposentada, artesã, pintora, tradutora, artista e política.

            Todas tinham algo em comum: o sorriso e o amor pela literatura!

           

           Tudo começou porque a rosa mais nova estava triste, pois percebera que o tempo ia passando rapidamente, ela se envolvia com afazeres diversos e não estava mais se encontrando com as outras rosas. Então resolveu chamar as rosas-amigas para uma reunião festiva com café, tapioca e muita conversa boa.

            A rosa anfitriã, afável e cordial como lhe é peculiar, conseguiu que todas as rosas se sentissem como se estivessem em seu próprio jardim! Decorou com muito carinho a mesa do lanche com as cores da Inglaterra: vermelho, azul e branco. Essas cores predominavam nas toalhas, nas louças, nos arranjos florais, nas cadeiras e até nos guardanapos e nos cartões com os nomes de cada rosa. Uniu elegância e simplicidade; graciosidade e singeleza; exuberância e candura.

            Às quatro horas da tarde do sábado, as rosas foram chegando. Cada uma trazia um “agradinho” para o lanche: queijo, doce de leite, chocolate, morangos, etc.

           

            A rosa psicóloga trouxe para a rosa anfitriã um lindo tapete de crochê confeccionado por ela mesma. Outra trouxe arranjos em origami. E todas chegavam com livros de sua autoria para trocar entre elas.

            Assim que todas chegaram, a rosa anfitriã pegou uma placa que estava na parede e mostrou para lerem. Todas aprovaram com muita alegria. Na placa estava escrito: proibido falar sobre religião e política.

            Após muitas gargalhadas, a reunião festiva prosseguiu.

            Nem todas as oito rosas se conheciam pessoalmente, claro. Algumas se conheciam apenas pela internet, mas a alegria reinava como se amigas de infância fossem. Às vezes conheciam a obra, mas não conheciam a autora! E esse encontro era a oportunidade que faltava para saber quem é ou pelo menos ter uma noção da rosa-autora.

 

           

           Todas as rosas falavam entre si, conversavam sobre tudo, desde artesanato, culinária, maquiagem e família, até relacionamentos conjugais, sexo, depressão e suicídio. E como não poderia faltar num encontro de rosas-escritoras, falaram em livros, capítulos, prefácio, editoras, etc.

            Nessa festa apareceu até um cravo! Mas esse cravo não brigou com a rosa como na cantiga popular infantil. Era um cravo estrangeiro e como ele não entendia muito bem a língua portuguesa, não se escandalizou com as conversas que ouviu!

            Ao lado da mesa do lanche, foi preparada outra onde foram colocadas as obras literárias para a troca entre as rosas. Após escolher o livro, cada rosa-leitora dirigia-se até a rosa-autora  para a sessão de dedicatória, além da apresentação de vários projetos literários das rosas poderosas e criativas, tudo registrado com fotos feitas pelo gentil cravo.

            No final, todas as sorridentes rosas reuniram-se num glamoroso e colorido ramalhete. Ou num jardim? Ah! Não importa! O que interessa é que estava tudo perfeito!

 

 

Simone Possas

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)