Simone Possas Fontana

MILTON E VERINHA

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Ela o avista da sua sala e criando coragem encaminha-se até ele.

– Oi. – riscando o chão com o bico do sapato e olhando o que desenhou.

– Oi. O que foi? Nunca viu alguém do lado de fora da sala de aula? – ele responde rudemente, com as mãos cruzadas nas costas e encostado na parede.

– Sim. Já o vi várias vezes encostado nesta parede e sempre fiquei curiosa para saber porque você ficava aqui fora ao invés de lá dentro? O que faz aqui?

– A professora me mandou sair.

– Você estava incomodando a aula?

– Ah! Ela disse que sim. Estava tudo muito quieto, mas queria dar um cascudinho na cabeça de um, beliscar o outro, queria falar, falar, falar…

– Ah tá! Queria chamar a atenção, né?

– Você acha? Pois que seja! – diz emburrado.

– Como se chama?

– Milton.

– Milton, se eu fosse psicóloga ou terapeuta diria que você vem de um lar turbulento, com um pai que bebe muito e após beber fica violento. Violento ao ponto de bater na esposa e nos filhos. Acertei?

– Hã? – diz o menino arregalando os olhos. – Até parece que você vai lá na minha casa e assiste as brigas!

– Viu? Acertei! Mas não fique triste, não! Deixe as brigas para o ambiente de sua casa, já que não pode evitar. Para cá traga apenas seus livros e a vontade de aprender, seu bobo! Está perdendo seu tempo!

– Hã hã. Obrigado Verinha. – diz de cabeça baixa, desta vez sem arrogância.

– Verinha? Como você sabe meu nome?

– Vi seu nome naquele cartaz ali. – apontando com o queixo para o cartaz na parede com fotos e nomes dos melhores alunos da escola. – Você é a melhor em tudo, né?

– Não Milton. Não sou melhor em tudo, mas gosto de estudar e aqui me sinto segura e tranquila. Não importa se tenho problemas em casa ou não. Quando aqui chego, me transformo. Vejo minhas amigas, conversamos, trocamos ideias, estudamos, damos risadas!

– Hum… Que bom. – responde o menino

– Temos um grupo de estudo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Se você quiser participar, será bem vindo.

– Verdade? Mas não sei nada! Não vou ajudar em nada!

– A princípio você vai aprender! Leva suas dúvidas e vamos ajudar a fazer as tarefas!

– Verinha… tem uma professora na porta de sua sala, com cara de brava, com os braços cruzados, olhando para cá.

– Oh! É minha professora! Nossa! Já se passaram quinze minutos que estamos conversando!

E voltou correndo para a sala de aula.

 

(Milton tornou-se engenheiro químico de uma grande multinacional e Verinha é escritora).

 

 

 

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

MINHA CONVERSA COM GABI

Postado em

criança balançando 1

– Toc, toc, toc.

– Pode entrar Gabi. Estou na cozinha.

Gabi é uma menininha muito esperta, filha da vizinha e que está acostumada a bater na minha porta, antes de sair para a escola. Entra correndo em direção à cadeira onde estou sentada.

Tia! Óia o que eu touce pala a senhola! – diz sorridente na linguagem das crianças, sacudindo uma nota de R$ 10,00. – É da minha mesada. Quelo ajudá na campanha da manicule.

Abri os braços e dei-lhe um abraço bem apertado e demorado.

Tia, a senhola tá tisti?

mulher aflita

– Não querida. Só pensativa.

Mas o olho tá tisti. – insiste ela.

– Não pequena. É que entrou um cisco no meu olho.

A senhola vai quelê? É pouco?

– Claro que vou aceitar, Gabi. Com muita honra! Não é pouco não!

Mas ainda acho que a senhola tá tisti.

– Não docinho! Estou pensando na vida… Pensando em quantas pessoas boas existem no mundo, iguais a você… Quantas pessoas ricas… Quantas pessoas necessitadas… Muita diferença e muita INdiferença!

mulher chorando 1

E é claro que vou aceitar seu din-din! E sabe por quê?

Primeiro porque você me deixou muito feliz com sua doação e a respeito muito. Pode ter certeza que a Valéria vai ficar contente quando contar para ela.

Em segundo lugar, porque preciso somente de R$ 800,00. Então preciso de apenas 80 pessoas que doem R$ 10,00 como você fez! Parece fácil, né?… Mas não é nada fácil conseguir 80 amigos entre meus 519 contatos da internet.

Em terceiro lugar porque essa doação vai fazer você se sentir muito bem… Vai deixá-la alegre… Mais leve… Não é verdade? – pergunto encostando meu dedo indicador em seu coraçãozinho.

Calo tia. To muito faceila em ajudá a Valélia. – diz timidamente.

sorriso

– Então… Em quarto e último lugar aceito para que esse seu gesto de amor se torne um hábito na sua vida! Assim, você nunca mais vai querer de parar de ajudar as pessoas que precisam. Fazendo essa corrente do bem, talvez consigamos diminuir o egoísmo no mundo.

– Ego… O quê, tia?

– Egoísmo, minha pequena, mas isso é assunto de adulto. Não quero que você se preocupe, tá?

Hã hã. Entendi tia. Agola tenho escolinha. Ouví balulo na póta. Minha mãe tá me espelando. – diz beijando-me no rosto e saindo correndo.

correr

Ao chegar à porta da saída, voltou correndo até a cadeira onde eu estava cabisbaixa, colocou uma mãozinha gorducha no meu joelho, com a outra levantou meu queixo, olhou bem nos meus olhos e disse:

Tia, Deus tá vendo tudo o que a senhola tá fazendo.

Deu-me outro beijo e saiu saltitante porta a fora.

Ai. Caiu outro cisco no meu olho…

choro

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

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BIOGRAFIA DE ARAL MOREIRA, POR LUIZ ALFREDO MARQUES MAGALHÃES:

Postado em

INSTITUTO DE GESTÃO EDUCACIONAL SIGNORELLI LTDA.

FACULDADE INTERNACIONAL SIGNORELLI

CURSO DE LETRAS: PORTUGUÊS E LITERATURA

 

BIOGRAFIA DE ARAL MOREIRA, POR LUIZ ALFREDO MARQUES MAGALHÃES:

A IMPORTÂNCIA DO REGISTRO DA HISTÓRIA DOS MORADORES DA REGIÃO, PARA PRESERVAÇÃO DE SUA CULTURA.

 

Simone da Conceição Possas*

 

RESUMO

 

O presente trabalho pretende efetuar a abordagem de uma das bases da literatura que é o registro histórico de uma sociedade, através da biografia. Conforme se depreende através da leitura, análise e estudo metódico do livro “Um Homem de Seu Tempo: Uma Biografia de Aral Moreira”, o assentamento histórico executado pelo pesquisador, fotógrafo, biógrafo e escritor Luiz Alfredo Marques Magalhães, ganhou substrato não apenas como base da literatura como era inicialmente esperado, mas também com um objetivo a ser alcançado e assim, mantido, de mostrar a importância de uma biografia para a identidade de um povo. Atualmente não mais se compreende a biografia apenas como uma base histórica, mas sim como um valor superior que deve ser considerado para aplicação e uso da literatura como instrumento de entretenimento, educação, instrução e aumento da intelectualidade. Pretende-se assim com a elaboração desse trabalho a compreensão da importância e do valor de uma biografia para a sociedade, bem como a distinção da utilização da mesma no campo da individualidade (leitura da biografia) e da coletividade (importância da identidade do povo da fronteira), com foco na literatura como um todo.

 

Palavras-chave: Biografia. Registro histórico. Cultura.

 

ABSTRACT

 

The present work intends to make the approach of one of the foundations of literature is the historical record of a society through the biography. As can be seen by reading, analysis and methodical study of the book “a man of his time: a biography of Aral Moreira”, the historic settlement run by researcher, photographer, biographer and writer Luiz Alfredo Marques Magalhães, earned not only as the basis of substrate literature as was initially expected, but also with a goal to be achieved and thus kept, to show the importance of a biography for the identity of a people. Currently no longer understand the biography only as a historical basis, but rather as a superior value that should be considered for application and use of literature as a means of entertainment, education, instruction and increasing intellectuality. It is intended that way with the preparation of this work the understanding of the importance and value of a biography for the society, as well as the use of the same distinction in the field of individuality (read biography) and collective (importance of the identity of the people of the frontier), with a focus on literature as a whole.

 

Key words: Biography. Historical record. Culture.

 

INTRODUÇÃO

 

          Busca-se, com a elaboração deste trabalho, mostrar a importância e pertinência acadêmica e social de preservar a cultura de um povo, através do seu registro em livro. Essa é a ideia básica. A coleta de informações e o foco desta pesquisa estão delimitados no livro: “UM HOMEM DE SEU TEMPO – UMA BIOGRAFIA DE ARAL MOREIRA”, escrito por Luiz Alfredo Marques Magalhães. No contexto geral, o escritor descreve o cenário sociopolítico da região de fronteira entre o Brasil e Paraguai, mais especificamente entre as cidades de Ponta Porã-MS, no Brasil, e a cidade paraguaia Pedro Juan Caballero-PY.

          Através de textos, documentos e fotografias da época apresentados em sua forma original, sobretudo cartas e manuscritos, todos transcritos literalmente para não interferir na realidade, assim como através de conversas, muitas histórias, lembranças do passado e relatos de Eraldo Moreira (filho de Aral Moreira), o autor mostra o processo de colonização do Estado de Mato Grosso do Sul por volta do século 18.

          Quais as razões para analisarmos a importância da preservação da cultura de uma comunidade e quais as consequências que porventura surgirão com seu desprezo? Não há dúvida acerca da relevância do tema. Para essa compreensão facilmente se percebe que inúmeros escritores pretendem dizimar a ignorância, buscando garantir a perenidade e integridade de um povo, conhecendo seus personagens principais, seus problemas econômicos, sociais e políticos.

          A escolha deste tema se deve ao fato da forte e vigorosa preocupação da falta de registros históricos para preservação da cultura, mas esse temor é minimizado com a leitura do referido livro, onde fica evidente e indiscutível, o relato perfeito da história, sem omissões e lacunas, através da transcrição de episódios, eventos, fatos e informações ocorridos com seres atuantes na história de Ponta Porã-MS.

 

PRESERVANDO A CULTURA

 

          Um conjunto de folhas de papel, impressas, encadernadas ou em brochura, organizadas em páginas, que servem de instrução, formam um livro e um conjunto desses livros, possuídos por um particular ou destinados à leitura pública constituem uma biblioteca. A literatura é o conjunto dessas obras literárias de um país ou de uma época, formada por escritos narrativos, históricos, críticos, de eloquência, de fantasia, de poesia, etc.

          A literatura é o meio utilizado para conservar, aumentar e utilizar a cultura. A cultura é a arte e o modo de cultivar a instrução, o saber, o estudo ou um trabalho intelectual, com apuro, perfeição e cuidado.

          Preserva a cultura, o escritor Luiz Alfredo Marques Magalhães, ao contar a vida de Aral Moreira, em sua biografia, narrando o comportamento, exaltando os feitos e os importantes personagens que marcaram a vida e as tradições da região de fronteira com o Paraguai, mais especificamente da cidade de Ponta Porã-MS, pós-guerra, enfocando os costumes, assim como o grande valor histórico na configuração do Estado de Mato Grosso, posteriormente, Mato Grosso do Sul.

 

A ECONOMIA DA FRONTEIRA

 

          O país fronteiriço – Paraguai, antes da guerra, estava gerando condições básicas para a modernização do país, criando indústrias, abrindo estradas, além de lançar as bases do ensino superior. A economia da época foi assim descrita no livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai (CHIAVENATO, 1988, p.31):

[…] O Paraguai está numa ebulição de progresso. A produção aumenta (…) fumo, erva-mate, algodão, arroz, cana-de-açúcar e mandioca são abundantemente colhidos. (…) chega-se a colher a surpreendente soma de sete milhões de quilos de fumo; obtém dois milhões e meio de quilos de erva-mate e há um significativo rebanho de sete milhões de cabeças de gado bovino […].

          Já o escritor Romildo Villanueva (2000, p. 150), no livro O Inferno Existe; Eu Estive Nele, descreve sobre a agricultura da região de fronteira:

[…] A reforma agrária feita constitui basicamente na abertura de fronteiras para que, através de colonizadores, se produzisse a entrada de agricultores estrangeiros no Paraguai. (…) 350 mil brasileiros ingressaram no Paraguai, principalmente gaúchos, e mais de 50 mil de outras nacionalidades. (…) ficaram conhecidos como ‘brasiguaios’ ao longo da faixa fronteiriça. (…) triplicaram a produção de soja e algodão que representava 60% da economia paraguaia […].

          No livro Semblanza de La Antigua Punta Porã, Villanueva (2001, p. 49), nos relata que o desenvolvimento da região fronteiriça aconteceu no período do pós-guerra contra a Tríplice Aliança – 1865/1870, em função da exploração, produção e comercialização em larga escala da erva-mate. Passado o ciclo de ouro da erva-mate (1878), a fronteira sofreu uma brusca transformação: o cultivo do café em grande quantidade.

 

A ORIGEM

 

         É esse cenário pós-guerra que é encontrado pelas famílias Trindade e Moreira ao se estabelecerem na fronteira, vindos do Rio Grande do Sul. Essa fronteira seca vive na harmonia entre as cidades de Ponta Porã-MS, no Brasil, e a cidade paraguaia Pedro Juan Caballero-PY, formada apenas por uma avenida, onde estão estabelecidos comerciantes em lojas de cosméticos, eletrônicos, calçados, roupas, tecidos, óculos, relógios, etc.

          Luiz Alfredo Marques Magalhães conta-nos a origem das famílias Trindade e Moreira, e o início do sucesso do patriarca – Antonio Ignacio da Trindade – como empreendedor, pois recebeu terras do governo, optou por explorar a erva-mate, aconselhado por Thomaz Laranjeira, um gaúcho que escreveu seu nome na história por liderar essa exploração na fronteira. Logo após casar-se, Trindade foi viver em Ponta Porã-MS, cidade que se desenvolvera rapidamente com o comércio ervateiro.

          A economia política que trata da produção, distribuição e consumo das riquezas da região, ainda não havia se preocupado com boas rodovias e é assim que Magalhães (2011, p. 29), descreve:

[…] Embora muitos pensem que Aral Moreira tenha sido um pontaporanense da gema, ele na verdade nasceu na Fazenda Boritizal, em Aquidauana (…) 20 de agosto de 1898, onde fez o curso primário (…) foi enviado para fazer o ginasial e faculdade de Direito no Rio de Janeiro. Chegar ao Rio naquele tempo não era uma tarefa fácil nem rápida. Aral partia de Ponta Porã no lombo de cavalo por mais de 200 quilômetros para chegar a Concepción-PY onde tomava um vapor até Montevideo e um navio de cabotagem até o Rio de Janeiro […].

          O livro “Um Homem de Seu Tempo”, objeto do presente estudo, nos trás vários assuntos que faz progredir nosso conhecimento adquirido, preservando a cultura, através de registros históricos dos costumes dos personagens da região fronteiriça entre os anos de 1900 e 1952. Magalhães (2011, p. 13 a 30) relata, desde 1826, através de textos e fotografias coloridas e em preto e branco, a saga das famílias pioneiras que deram origem ao biografado Aral Moreira: Trindade & Moreira. A família TRINDADE, com sua série de grandes acontecimentos na viagem épica desde o Estado do Rio Grande do Sul até chegarem a “terra prometida”: Mato Grosso do Sul e a família MOREIRA originária de Bouça, em Portugal, vindo para a América passando por Uruguai, Corumbá e finalmente Aquidauana-MS.

 

O PARAGUAI

 

        A presente pesquisa documental foi desenvolvida e teve como fonte de investigação o livro “Um Homem de Seu Tempo”, de Luiz Alfredo Marques Magalhães, seus relatos históricos com um ponto de vista através de um tratamento sociológico, estudando os fatos sociais da época na região de fronteira. A fim de atingir um grupo de pessoas específico como professores, estudantes, jornalistas, historiadores, escritores ou amantes da literatura, foi escolhido e delimitado o tema, estabelecendo limites e informando o foco do presente estudo.

          Vários autores escreveram sob a região da fronteira entre Brasil e Paraguai, suas lutas, seus problemas e qualidades, mas o livro ora estudado, com a biografia do ilustre Aral Moreira, é único, não passou antes por um exame minucioso em cada uma de suas partes; não ocorreu a separação de seus componentes, enfim, não teve um tratamento analítico e o que pode ser afirmado com convicção é: contando a vida de Aral Moreira, conta-se a vida da cidade fronteiriça de Ponta Porã-MS.

          Ao chegar à fronteira, a família ancestral de Aral Moreira, encontrou uma Ponta Porã que estava se reerguendo. O Paraguai, antes da guerra, estava numa súbita manifestação de desenvolvimento, contando até com estaleiro e esses navios produzidos ali, partiam da capital Assunção para a Europa, carregados de erva-mate, fumo e alguns outros produtos, para voltarem com aparelhos científicos, armas mais sofisticadas, máquinas de imprensa e produtos químicos. Esse progresso foi assim contado no livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai (CHIAVENATO, 1988, p.32 e 33):

  […] Comparando-se a explosão nacional de progresso do Paraguai com a dependência total da quase inexistente indústria brasileira e argentina, é evidente que o Paraguai para a civilização inglesa era um perigo. (…) na metade do século XIX exporta madeira, produz louça fina, constrói ferrovias, exporta salitre, ergue fábricas de pólvora, papel e enxofre. Instala-se o telégrafo […] implementos agrícolas são fabricados na fundição Ibycuí dando melhores condições de trabalho ao camponês paraguaio aumentando sua produtividade […].

          Além da famosa guerra que durou de 1863/1870, o Paraguai também sofreu conflitos internos, com movimentos revolucionários. Um desses grupos, após ser destroçado pelo exército paraguaio iniciou uma extenuante jornada pela cerrada floresta em direção à linha fronteiriça com o Brasil com a finalidade de requerer asilo político, como assim descreve o escritor Romildo Villanueva (2000, p. 129, 130), no livro “O Inferno Existe; Eu Estive Nele”:

[…] Alimentando-se de frutas silvestres e de alguns animais que conseguiram furtivamente caçar, os rebeldes fugitivos empregaram exatos 30 dias para atingir o objetivo. Geralmente a marcha era feita a noite com o intuito de iludir a constante vigilância aérea de um pequeno bimotor com bandeira paraguaia e equipado com metralhadoras que os perseguiu durante todo o trajeto de aproximadamente 300 quilômetros em linha reta. (…) o ingresso dos fugitivos em território brasileiro deu-se a uns 8 quilômetros a sudoeste do povoado […] antes, porém, os fugitivos tomaram a preocupação de se livrar das armas de uso militar que portavam até aquele momento. Embrulhadas com pedaços de cobertores, estas foram escondidas num mato, dissimuladas convenientemente entre a folhagem […].

          Em respeito às almas das pessoas que morreram nesse fato cruento, até hoje lembrado por paraguaios e brasileiros que habitam essa região da fronteira, em meio a um terreno com um alto capim, foi fixada uma erma e tosca cruz de ipê, que resiste a ação do tempo. Com a intenção de preservar a história, relata Villanueva (2001, 143):

[…] uma iniciativa nascida no seio da sociedade pedrojuanina visa reparar esse dano histórico ocasionado pela passada ditadura, possibilitando a exumação dos restos ósseos que, provavelmente, ainda existam no improvisado cemitério […] e, posteriormente, dar-lhes cristã sepultura em solo guarani (…) Para tanto, uma comissão multisetorial de ação cidadã que está sendo formada em Pedro Juan Caballero irá solicitar a intervenção da Comissão de Direitos Humanos […].

          É esse cenário pós-guerra que é encontrado pelas famílias Trindade e Moreira ao chegarem a Ponta Porã-MS.

 

A LINHA DIVISÓRIA: PEDRO JUAN CABALLERO-PY E PONTA PORÃ-BR

 

          No livro “Semblanza de La Antigua Punta Porã”, Villanueva (2001, p. 52), nos conta que a grande contribuição para o aumento do progresso em Pedro Juan Caballero-PY (fronteira com Ponta Porã-BR) foi o ciclo da erva-mate, transformando aquela que era uma simples paragem em um ativo centro comercial. Era forte o monopólio da empresa Mate Laranjeira Mendes & Cia., em tudo que se relacionava com a produção, transporte e comercialização do produto cujo principal mercado foi, por muitos anos, a Argentina e o Uruguai. Os carregamentos se utilizavam de caravanas de carretas de bois, partindo da empresa Mate Laranjeira. Aí existia um enorme depósito no qual eram armazenadas as bolsas com a erva-mate antes do transporte final até o porto de Concepcion-PY através de penosas marchas com mais de 200 quilômetros, em viagens que demandavam cerca de dois meses entre ir e voltar.

          Essa aprazível linha divisória teve sua posse inicial definida basicamente por pessoas vindas do Rio Grande do Sul que encontraram um lugarejo em formação, habitado por poucos agentes fazendários, guarda militar estadual e alguns paraguaios fronteiriços. Aos poucos foram chegando imigrantes uruguaios, argentinos, sírios, libaneses, espanhóis e italianos. A maior parte se dedicou a negociar gêneros de primeira necessidade para atender a procura dos fazendeiros, negociantes da erva-mate, funcionários públicos e militares, fomentando a movimentação do dinheiro, fazendo desenvolver o povoado, transformando-o na cidade de Ponta Porã. Essa cidade, na década de 1920, achava-se provida com o que de melhor havia no vestir, beber e comer dada a extraordinária simplicidade que sempre existiu na introdução de produtos estrangeiros.

          Magalhães (2011, p.86) diz que bons carpinteiros e construtores ajudaram a erguer sólidas residências e armazéns, seguindo a linha arquitetônica neo-clássica imperante na época, uma influência dos imigrantes europeus, visível também em localidades vizinhas a Ponta Porã como Concepción no Paraguai e Aquidauana, Nioaque e Porto Murtinho, no Brasil. Magalhães, às folhas 87 a 97, mostra um apanhado das construções, seus moradores e documentos, em fotografias da primeira metade do século XX, a época em que Aral Moreira viveu: praça que era um palco ao ar livre onde ocorriam os eventos importantes da fronteira como desfiles cívicos e comícios políticos; igrejas; quartel do Corpo Militar de Polícia – obra da Companhia Mate Laranjeira; vala cavada em toda a extensão da linha divisória para impedir a passagem de veículos, pois cruzar a fronteira só era permitido em lugares pré-determinados em 1926; vista aérea da linha da fronteira em 1945; prédio da Pharmacia Estrella – pertencente a família de Aral Moreira inaugurada em 1926; prédio da Camisaria Royal (1927); quartel do 11º Regimento de Cavalaria (1924); Cine Brasil dividido em plateia e frisa (camarote térreo) e cadeiras superiores, tudo em madeira, inaugurado em 1935; Hotel Brasil e prédios residenciais da época.

 

ARAL MOREIRA: UM HOMEM MÚLTIPLO DE AÇÕES

 

          Em 1918 Ponta Porã ganhou seu primeiro clube social literário e recreativo com o nome de Grêmio Luz e Recreio. Magalhães (2011, p. 98) conta-nos que no Grêmio havia uma varanda em toda a extensão da entrada; no salão, piso de madeira – com longas, planas e lisas tábuas de ipê – mais de uma geração dançou ao som de bandas que iam de Assunção-PY e Campo Grande-MS, nos bailes tradicionais ou em animados carnavais. Em dias de semana, era lá que a juventude costumava passar algumas horas da noite ouvindo música de vitrola, enquanto bebiam uma Antarctica Original no bar (MAGALHÃES, 2011, p. 98):

[…] Nos fundos havia uma quadra de esportes, onde se jogava vôlei e basquete; em determinada época o tênis teve a sua vez (…) Aral fez parte das primeiras diretorias do Grêmio, sendo sócio e benemérito até o fim da vida. Em 1948 interrompeu sua participação: numa atitude irredutível, saiu em defesa de um sócio, que morava ao lado do clube (…) vem à tona algumas das evidências que reafirmam uma personalidade leal e democrática. (…) Aral Moreira saiu fortalecido do episódio (…) eram atos dessa natureza que conduziam um homem ao topo de uma carreira de sucesso […].

          O filho ilustre (por adoção) de Ponta Porã, Aral Moreira, possuía as qualidades de inteligente, erudito e estudioso e esteve sempre acompanhado por grandes figuras, personagens importantes que aparecem como destaque na sociedade brasileira (MAGALHÃES, 2011, p. 33):

[…] O futuro deputado ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1917. Lá conheceu Afonso Arynos de Mello Franco, um notável homem público brasileiro; quis o destino que o reencontrasse trinta anos depois, já na Câmara Federal do Palácio Tiradentes, ambos tomando parte da mesma bancada partidária […].

          Magalhães (2011, p. 37) descreve a convivência de Aral Moreira com mestres e intelectuais no Rio de Janeiro, que era a capital reconhecida como berço do conhecimento nacional. Isso estimulou o gosto pela leitura, pois era um insaciável leitor de jornais, cujos textos ele recortava e arquivava para posterior discussão ou releitura. Nos recortes encontrados estavam misturados temas de filosofia grega e poesia com informações sobre agricultura, descobertas médicas e avanços tecnológicos. E prossegue informando-nos sobre seu conhecimento científico e literário, que o marcou com um perfil de advogado correto, justo e ético (MAGALHÃES, 2011, p. 39):

[…] Admirava Machado de Assis e Julio Verne, leituras paralelas às obras de mestres do direito como Clovis Bevilacqua e Ruy Barbosa (…) Ao completar com louvor a faculdade, Aral já levava articuladas na mente as ideias que o fariam tomar cedo nas mãos as rédeas de seu próprio destino. Abriu imediatamente seu escritório e, com a marcante característica de sempre escrever suas petições em caligrafia de chamar a atenção, tornou-se rapidamente um dos mais conceituados advogados do sul de Mato Grosso […].

          Ao retornar para Ponta Porã, abriu seu escritório jurídico e envolveu-se em todas as questões sociais que considerava relevantes para a cidade. Em 1926 casou-se com Erotilde Saldanha e tiveram um único filho: Eraldo. Participou de clubes, obras assistenciais, associações comerciais e industriais; foi delegado, promotor público, prefeito substituto e representante de classe; consultor jurídico do estado, jornalista, comerciante, ervateiro e pecuarista e essa multiplicidade de ações o levou à política. Até se tornar deputado federal, Aral deixou para a cidade de Ponta Porã, um rastro de benefícios, admiradores e adversários (MAGALHÃES, 2011, p. 48):

[…] final da década de 1920 suas inclinações políticas começaram a lhe render grandes dores de cabeça, pois era sabidamente um liberal que não costumava mandar recados e que assumia publicamente suas opções ideológicas. (…) Ponta Porã era a segunda cidade mais populosa do estado (…) mas a riqueza gerada por tanta gente, fundamentalmente na atividade ervateira, não era reaplicada como deveria pelo poder situado no norte, o que colocava as duas regiões em atrito. Aral estaria entre os homens que não se conformavam (…) e lutaria como poucos para valorizar sua terra […].

          Magalhães (2011, p.49) relata ainda que Ponta Porã, da época de Aral, estava passando por profundas transformações econômicas e acontecimentos político-sociais de relevo, tais como: passagem da coluna Prestes, Revolução de 32, as lutas comerciais em torno da erva-mate, a longa permanência e a posterior extinção da célebre Cia. Matte Laranjeira e a elevação da cidade a capital do Território Federal. Essa fronteira atraiu o olhar de Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança e Assis Chateaubriand.

          Enquanto tudo estava em efervescência, Aral Moreira ia, aos poucos, iniciando-se na política, pois se destacava como um jovem advogado com talentosa inteligência, vindo de uma família tradicional e respeitado pela constância e persistência de índole, impecável postura, exprimindo com desenvoltura sua capacidade de persuasão e com firmeza sua arte da eloquência. Todas essas qualidades levaram-no a assumir trabalhos de influência: prefeito substituto, promotor de justiça, subchefe de polícia, consultor jurídico do estado, conselheiro municipal e deputado na Assembleia Constituinte.

          O tempo foi passando, os ânimos ficaram mais exaltados por causa do processo revolucionário separatista do Estado de MT e Aral foi um dos primeiros a tomar a frente, com o intuito de trazer progresso à região (MAGALHÃES, 2011, p. 69):

          […] Armou-se e partiu para o confronto. Durante os três meses de duração do conflito, os serviços postais, que já eram precários (…) pararam de funcionar. As notícias (…) deixavam as famílias sobressaltadas; as correspondências eram entregues em mãos, levadas por mensageiros de confiança montados em cavalos ou mulas; as poucas estradas que cortavam o sul se tornaram extremamente arriscadas […].

          Magalhães reproduz, nas páginas 69 a 85, fotos de bilhetes e cartas de Aral Moreira ao comandante político separatista, informando acerca de seus movimentos no combate contra as forças legalistas.

          Uma das fotografias era cuidadosamente por ele guardada e estava anotado no seu verso apenas o nome de Luiz Pinto de Magalhães, gaúcho de São Luiz Gonzaga-RS, que chegou a Ponta Porã em 1900. Foi um dos mais tradicionais homens públicos de Ponta Porã – primeiro delegado (1913), juiz de direito substituto (1926), prefeito interino em três oportunidades e um grande amigo de Aral Moreira (MAGALHÃES, 2011, p. 95):

[…] Aral manteve excelentes relações com aquele sul-rio-grandense que admirava pela correção de atitudes e nobreza de caráter. O filho de Aral, Eraldo, ao relatar passagens de sua infância, relembra que costumava correr pelo quarteirão da antiga Rua Rio Grande do Sul, atual Presidente Vargas, vindo do escritório do pai para o casarão de Luiz Pinto, que se localizava onde hoje é o Centro Pastoral da Paróquia São José, na Avenida Brasil. Eraldo levava consigo documentos para o amigo do pai assinar ou analisar, pois Luiz Pinto Magalhães, pela longa experiência adquirida no trato da coisa pública em Ponta Porã, era um homem para ser ouvido […].

          Aral Moreira também foi fundador e diretor por muitos anos do jornal A Folha do Povo, onde travou lutas ásperas e defendeu sempre o bom nome e os interesses de Ponta Porã. Antes de surgir com A Folha do Povo, alguns intelectuais da terra imprimiram nos primeiros anos da década de 1930, como nos conta Magalhães (2011, p. 106):

[…] ‘Tagarella’ tabloide em formato ofício que teve entre seus colaboradores uma figura que marcou época na cidade, o poeta e intelectual baiano José Baraúna, casado com a ponta-poranense Loreta Badeca. (…) surgiu ‘A Mutuca’ que tinha o objetivo explícito de criar polêmica com seu rival mais velho. As disputas eram bem-humoradas (…) ambos não se prestavam às necessidades formais do município como órgãos formais para veicular publicidade de cartórios e prefeitura. Para suprir surgiram: O Sul, O Correio do Povo, A Folha do Povo e O Independente […].

          Aral era um político inquieto e precisava de espaço para seus feitos e atitudes que vinham ressoando pelo Estado gerando admiração, amizades e adversários. O semanário A Folha do Povo estava com dívidas, certo desinteresse de seus proprietários, rodando precariamente e sem licença obrigatória para sua divulgação. Aral entrou com processo de registro federal distribuindo-o para todo o Estado e para a Capital Federal. Fotos de algumas notícias, editoriais e reclames ilustram as folhas 111 a 117 (MAGALHÃES, 2011, p. 110):

[…] O estilo sério e direto que Aral imprimia a seus editoriais – que não tratavam apenas de política apaixonada, prestava-se, sobretudo a repercutir os interesses da sociedade fronteiriça – foi o principal fator a contribuir para a relativa longevidade do semanário. Por quase quatorze anos, Aral esteve à frente da empresa jornalística. Em 1946 a venderia para sócios da Companhia Mate Laranjeira […].

          No final dos anos 1930, a produção ervateira mato-grossense alcançava seu melhor momento, quando eram exportadas mais de dezesseis mil toneladas anuais de erva, fora o consumo interno. Consolidava-se como o negócio mais rentável do sul do Estado, superando a pecuária bovina. Em 1938 nasceu o Instituto Nacional do Mate, com sede do Rio de Janeiro; tinha caráter normativo e era administrado por uma Junta Deliberativa. Amadureceu-se a ideia das cooperativas; seu maior propagador foi Aral Moreira, quando já fazia publicar no jornal A Folha do Povo estudos sobre as vantagens do sistema cooperativista. Em 1940 foi fundada oficialmente a Cooperativa de Produtores de Mate de Ponta Porã. Aral fazia parte como produtor e diretor (MAGALHÃES, 2011, p. 125):

[…] Em fins de 1938 nasceu um sindicato de ervateiros (…); entretanto a iniciativa não obteve o registro do governo federal. Antes, em 1936, Aral idealizou um Consórcio de Produtores onde agregou gente influente e abastada da região, para sensibilizar os produtores de erva; lançava assim a semente da futura Cooperativa de Ponta Porã (…) Em 1944 (…) organizou-se em Ponta Porã, a Federação de Produtores de Mate Amambai Ltda., que passou a exercer também o papel de exportadora, tendo sido Aral Moreira, um dos seus representantes […].

          A Argentina recebia um incremento populacional impressionante: gente de várias partes do mundo lá aportava atraída pelas facilidades oferecidas para o plantio e replantio de variedades de erva-mate. O enfraquecimento das importações é assim informado (MAGALHÃES, 2011, p.126 e 127):

[…] A única nuvem que escurecia aquele horizonte promissor (…) era que um dia seu principal mercado comprador, a Argentina, de alguma forma viesse a enfraquecer ou que atingisse a autossuficiência produtiva, interrompendo as importações. (…) a Argentina cessou de vez suas importações. Sobraram estoques, o preço caiu, o mercado minguou; desde então a erva-mate, produto-símbolo da riqueza de uma época, passou a desempenhar um papel ainda viável no século XXI, mas ocupando um posto secundário […].

        Aral Moreira encontrava tempo para tudo. Foi um dos fundadores do Aeroclube de Ponta Porã, pois Getúlio Vargas, logo após criar o Ministério da Aeronáutica, abraçou o projeto “Deem Asas para o Brasil”, uma campanha que visava à doação de aviões e recursos para a construção de aeroclubes por todo o país. Ponta Porã foi brindada com dois pequenos aviões.

        Paralelamente à vida forense e a grande paixão política, não perdeu o gosto pela vida da campanha. A primeira aquisição rural foi um sítio, último espaço de floresta nativa dentro da cidade de Ponta Porã, servido por um córrego e por uma mata que foi preservada e ampliada pelo próprio Aral com replantio de inúmeras espécies de árvores típicas da região entre ornamentais e frutíferas. Mais tarde, seu filho Eraldo aumentou a área do bosque e, em 1976, transformou a área num hotel pousada, que ainda hoje é o predileto de muitos visitantes.

 

A DESPEDIDA DE ARAL MOREIRA

 

        O advogado, empresário e político Aral Moreira, faleceu em 1952. Enquanto aguardava a cirurgia a que se submeteria no Hospital dos Servidores no Rio de Janeiro, escreveu a todos os amigos mais chegados; relembrou passagens, mandou algumas ordens, solicitou favores; mesclando brincadeiras com assuntos sérios. Sintetizou a história que viveu com cada um. Sua percepção de que alguma coisa poderia lhe suceder, é transcrito por Magalhães (2011, p. 146) num trecho de uma das cartas:

[…] Amigo Luiz Issa! Saúde e alegria. Escrevo-lhe do Hotel, digo, do Hospital onde me encontro internado fazendo diversos exames para depois ser ‘carneado’ pela barriga. Você me conhece e sabe que não sou impressionável (…) aguardo a hora H com serenidade. (…) Caso eu deixe vocês em paz, indo deste mundo para baixo da terra, voltando para o lugar de onde saímos, peço-lhe que tenha certeza da sinceridade da amizade que sempre lhe dediquei. Você foi um dos raros, ou para ser franco, raríssimos homens que me compreenderam, me honraram e foram sempre solidários e confiaram em minha atuação […].

 

CONCLUSÃO

 

          O presente artigo pretendeu abordar uma das bases da literatura que tem por finalidade mostrar a parte histórica de uma sociedade, a partir da visão do escritor Luiz Alfredo Marques Magalhães. Essa base histórica, informadora e formadora de novas mentes pensantes, afigura-se como base educacional, esclarecedora e intelectual da literatura. Com efeito, essa base da literatura, em tudo instrutiva, é a norma que provê a unidade da educação, do esclarecimento e da informação. Simultaneamente, com sua função de entretenimento, desempenha também a literatura a função histórico-cultural.

          O reconhecimento da importância histórica nos fatos narrados no livro foi fruto de um estudo, de conhecimentos adquiridos, observação e análise, laboriosamente engendrado tendo como parâmetro o livro “Um Homem de Seu Tempo: Uma Biografia de Aral Moreira”, escrito por Luiz Alfredo Marques Magalhães.

          A série de ideias, a variedade de assuntos, a sucessão de teorias que se desfrutam na literatura, torna-a uma excelente atividade atrativa e uma dessas atividades é a biografia. Já se pode falar em preferências e desejos, colocando a biografia como superfonte da literatura, sobrepondo-se a livros de história, pois, em face de sua natureza, a biografia descreve a vida de alguém narrando as fases dessa pessoa interagindo com a sociedade da época.

          Não se quer dizer aqui que exista o predomínio das biografias, mas sua importância, sim. Acompanhada da base histórica, pode-se alcançar a completa harmonia com a fiança da força de produzir resultados positivos. E sob esse prisma, a base histórica é a função que mais se utiliza a biografia para atingir seus fins.

          Assim, com essa linha de raciocínio, tem-se que a partir de vasta pesquisa e estudo, paralelamente à trajetória do biografado – Aral Moreira, Magalhães apresenta elementos importantes da paisagem social, econômica, cultural da região da fronteira, as lutas políticas, a influência de grandes empresas e a questão divisionista do Estado de Mato Grosso.

          Contando a história de Aral Moreira, conta-se um pouco da história de Ponta Porã-MS.

 

REFERÊNCIAS

 

CHIAVENATO, Julio José. Genocídio americano: a guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1988.

MAGALHÃES, Luiz Alfredo Marques. Um homem de seu tempo: uma biografia de Aral Moreira. Ponta Porã: Alvorada, 2011.

VILLANUEVA, Romildo. O inferno existe; eu estive nele. 3. ed. Ponta Porã: Borba, 2000.

VILLANUEVA, Romildo. Semblanza de la antigua Punta Porã. Ponta Porã: Cândia, 2001.

 

* Graduada no Curso de Letras pela Universidade Católica Dom Bosco-UCDB de Campo Grande-MS

 

CADA QUAL COM SEU CADA QUAL

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cada qual com seu cada qual

            Cada macaco no seu galho, cada um com seu cada um, cada um na sua, cada um no seu quadrado, cada qual com seu cada qual… Não importa o jeito que se diga, são expressões populares que significam que cada pessoa deve preocupar-se apenas com aquilo que lhe diz respeito.

            As pessoas são diferentes umas das outras no modo de ser, de pensar, de existir e, portanto, cada um age de uma maneira. Não precisamos ser todos iguais, não precisamos concordar com o que o outro faz, mas principalmente, não deve nos interessar o que o outro faz, pelo menos não deve ser importante a ponto de nos tirar o sono e nos deixar irritados: cada qual com seu cada qual!

            Observando-as, consegui identificar dois grupos, que aqui vou chamá-los de grupo 1 e grupo 2.

            No grupo 1 podemos encontrar pessoa:

            – que se sente superior ao outro;

            – que ordena, pois não sabe pedir;

ordenando

            – que elogia com falsidade e/ou ironia;

            – que presenteia com intenção de comprar sentimento;

            – que doa o pão, mas não aperta a mão suja do pobre;

            – que não demonstra afeto através de um abraço (não se sente bem com contato físico);

            – com palavras ásperas que ferem como o fio da espada;

            – infeliz; triste, incompleta e sugadora;

            – pessimista, solitária, amarga e amargurada;

            – irritada, mal humorada, depressiva e baixo astral.

            Se fosse personagem de estória em quadrinhos, é aquela pessoa que sempre tem uma nuvem negra sobre sua cabeça, semblante fechado, carrancudo, sem sorriso. Está sempre de mal com a vida e com todos. Pessoa desse grupo 1, muitas vezes nem percebe que assim é, mas trata os outros com superioridade, desprezo e arrogância. Sofre sem perceber!

choro

            Mas, como diz o título desta crônica: cada qual com seu cada qual!

            No grupo 2, encontrei característica de pessoa:

            – que sabe pedir com educação e humildade;

            – que elogia com sinceridade e com intenção de agradar;

            – que presenteia por prazer;

            – que doa com alegria (se não doar, entristece);

            – que se utiliza de palavras amáveis e enaltecedoras;

           – otimista, feliz, completa e desprendida;

            – bem humorada, alto astral e em paz;

            – sorridente e rodeada de amigos sorridentes;

            – amorosa, afetuosa e com abraço apertado.

abraço 1

            A pessoa do grupo 1 não aceita a pessoa do grupo 2; tem inveja, ciúme, desprezo, repulsa. Não consegue entendê-la! Não acredita que possa existir alguém assim. Acha que é tudo fingimento. Então critica, critica e critica a pessoa do grupo 2.

            Cada qual com o seu cada qual!

            A pessoa deve reconhecer o seu lugar, sem se intrometer em assuntos alheios, dos quais não lhe compete, ou seja, “cuide de sua vida que eu cuido da minha”. Cada um com seus problemas. Sempre respeitando a todas as diferenças: não importa se usa sandálias no inverno e botas no verão; se mistura prata com ouro ao se enfeitar; se gosta de sair para se divertir com um grupo de amigos ou sozinha; se usa roupa de saco ou de grife famosa; se bebe vinho importado ou vinho de mesa; se usa salto ou chinelo; com maquiagem ou sem maquiagem; se prefere fruta gelada ou natural; se tem bom gosto ou não; se é gordo ou magro; baixo ou alto; pobre ou rico, e por aí vai.

            Cada qual com o seu cada qual!

            Observando mais introspectivamente sinto-me feliz ao fazer parte do grupo 2 e digo à pessoa que se identificou como sendo do grupo 1:

grito

            – Abra um sorrisão, desarme-se e venha para o grupo 2! Aqui são todos bem vindos! Mas não quero lhe incomodar. Não vou criticar. Se preferir, continue como está. Afinal… Cada qual com o seu cada qual!

Agosto/2016

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

Eu e o PCC 2

 

 

LOBA VORAZ

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loba

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deslizo minhas mãos sobre ele.

Faço um carinho suave.

Viro-o.

Acaricio suas costas.

Desviro-o.

Passo minhas mãos novamente.

Várias vezes.

Com mais força.

Encosto meu rosto nele.

Cheiro. Hum… Que cheiro bom!

Abraço-o com força.

Aflita, devoro a orelha esquerda.

Em seguida, a direta.

Posiciono-me.

Ele se encaixa em mim

E eu nele.

Agora somos um só.

Quero atingir o ápice.

Como uma loba faminta e voraz.

Quero consumi-lo todo com avidez.

Ansiosa e pronta para iniciar…

…A LEITURA DE UM NOVO LIVRO!

 

(Pensou que estava falando sobre o quê?)

mulher-e-livro

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

Eu e o PCC

 

NÃO CANTO MAIS

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cantor

            Não sou cantora, mas gosto de caminhar pelas ruas, cantando, sempre que vou ao serviço, ou mesmo mercado, centro da cidade, médico, etc. Gosto de cantarolar. Às vezes a música em que penso cantar, desconheço a letra, então cantarolo. Por outras, não me vem na mente qualquer música, então canto o Hino Nacional Brasileiro, Hino à Bandeira, Hino da Independência do Brasil, Hino da Marinha (só sei uma parte).

            A impressão que eu tinha é que eu caminhando cantando dava a entender às pessoas que eu estava feliz, mesmo caminhando muitos quarteirões (não estava de carro), encarando ruas com aclives intensos, carregando sacola, tendo um sol forte batendo na cabeça, indo ao médico ou até enfrentando chuva (abria meu guarda-chuva e continuava cantando).

chuva

            Minha intenção era contagiar as pessoas com meu gesto. Fazê-las entender que poderiam cantarolar também mesmo com todos os afazeres do dia-a-dia, as preocupações, as ocupações.

            Mas acho que meu objetivo não vai ser alcançado. Palpito que não estou agradando. Ao invés de transmitir uma mensagem agradável, de paz e harmonia, estou fazendo o oposto. As pessoas me olham como se me dissessem:

            – Olha só aquela lá: caminhando cantando, toda sorridente pelas ruas; com certeza não está desempregada, tem seu din-din para pagar as contas de água, luz, mercado, etc. Assim é fácil!

dinheiro 1

            Ou ainda:

            – Hum… Lá vai aquela coroa sorridente… Sempre cantando… Certamente está muito bem de saúde, não tem dor, não tem familiares hospitalizados. Desse jeito é muito fácil! Assim até eu!

            Outros:

            – Viram essa mulher que passou por nós cantarolando? Na certa está saindo de sua casa. Ela tem uma casa para morar. Garanto que nem paga aluguel. Deve ter casa própria. Acho até pouco! Se fosse comigo? Se eu pudesse deixar meu barraco e tivesse minha casinha para morar? Eu cantaria e dançaria no meio da rua!

alegria

            É. Está decidido: vou parar de cantar.

            É com dor no coração que paro.

            Não quero que minha alegria seja conhecida como um deboche às mazelas da vida. Sou feliz porque estudei, passei num concurso e tenho meu emprego; sou feliz porque tenho saúde; sou feliz porque não preciso mais pagar aluguel; sou feliz porque tenho minha família e amigos; sou feliz porque amo e sou amada.  Devo ficar com a cara sisuda por causa disso? Carrancuda? Não seria ao contrário: se estou com problema, fico de cara emburrada, mas se estou feliz, fico com cara alegre?!?!

mulher dor

            Sou pecadora porque sou feliz? Não é esse o objetivo: nascer, crescer, estudar, trabalhar, ser feliz, trabalhar mais para ter uma qualidade de vida melhor, oferecendo um conforto para si e seus familiares?

            Vocês venceram: não canto mais (mas, vou continuar sendo feliz… muito feliz!).

mulher feliz

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

Eu e o PCC

TODO CONHECIMENTO

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livros

 

Que me importa se faz frio ou calor,

Se é branco ou preto, se é inverno ou verão

Se está cheio ou vazio, que me importa o odor,

Se chove ou se faz sol, não importa se ocorrerão. 

sol e mar

 

Que me importa se é rico ou pobre, humilde ou a rigor,

Se pequeno ou grande, se baixo ou alto são,

Se cumprido ou curto, se magro ou gordo com rigor

Se moderno ou antiquado, se quadrado ou redondão.

 quadrado

 

Que me importa se é quente ou frio, se doce ou com amargor,

Se saboroso ou intragável, se inimigo ou amigão,

Se em pé ou deitado, se preenchido ou no brancor

Se por dentro ou por fora, se ligado ou desligadão.

desligado

 

Quero curtir o frio e a chuva; o sol e o calor

Todas as cores e nuances, todas as raças ocorrerão

Todas as estações, todos os aromas com fulgor

Todas temperaturas, todas procedências saberão.

 mundo

 

Quero curtir todo tamanho, altura e valor,

Todo estilo, sabor e amor, toda posição,

Todo tipo, jeito e trejeito, todo localizador

Todo domínio, conhecimento e fantasia com emoção!

mulher feliz1 

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

Membro da UBE/MS-União Brasileira de Escritores,

Membro da Academia de Letras do Brasil-Seccional MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos LIVROS MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo)