Conto

MILTON E VERINHA

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Ela o avista da sua sala e criando coragem encaminha-se até ele.

– Oi. – riscando o chão com o bico do sapato e olhando o que desenhou.

– Oi. O que foi? Nunca viu alguém do lado de fora da sala de aula? – ele responde rudemente, com as mãos cruzadas nas costas e encostado na parede.

– Sim. Já o vi várias vezes encostado nesta parede e sempre fiquei curiosa para saber porque você ficava aqui fora ao invés de lá dentro? O que faz aqui?

– A professora me mandou sair.

– Você estava incomodando a aula?

– Ah! Ela disse que sim. Estava tudo muito quieto, mas queria dar um cascudinho na cabeça de um, beliscar o outro, queria falar, falar, falar…

– Ah tá! Queria chamar a atenção, né?

– Você acha? Pois que seja! – diz emburrado.

– Como se chama?

– Milton.

– Milton, se eu fosse psicóloga ou terapeuta diria que você vem de um lar turbulento, com um pai que bebe muito e após beber fica violento. Violento ao ponto de bater na esposa e nos filhos. Acertei?

– Hã? – diz o menino arregalando os olhos. – Até parece que você vai lá na minha casa e assiste as brigas!

– Viu? Acertei! Mas não fique triste, não! Deixe as brigas para o ambiente de sua casa, já que não pode evitar. Para cá traga apenas seus livros e a vontade de aprender, seu bobo! Está perdendo seu tempo!

– Hã hã. Obrigado Verinha. – diz de cabeça baixa, desta vez sem arrogância.

– Verinha? Como você sabe meu nome?

– Vi seu nome naquele cartaz ali. – apontando com o queixo para o cartaz na parede com fotos e nomes dos melhores alunos da escola. – Você é a melhor em tudo, né?

– Não Milton. Não sou melhor em tudo, mas gosto de estudar e aqui me sinto segura e tranquila. Não importa se tenho problemas em casa ou não. Quando aqui chego, me transformo. Vejo minhas amigas, conversamos, trocamos ideias, estudamos, damos risadas!

– Hum… Que bom. – responde o menino

– Temos um grupo de estudo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Se você quiser participar, será bem vindo.

– Verdade? Mas não sei nada! Não vou ajudar em nada!

– A princípio você vai aprender! Leva suas dúvidas e vamos ajudar a fazer as tarefas!

– Verinha… tem uma professora na porta de sua sala, com cara de brava, com os braços cruzados, olhando para cá.

– Oh! É minha professora! Nossa! Já se passaram quinze minutos que estamos conversando!

E voltou correndo para a sala de aula.

 

(Milton tornou-se engenheiro químico de uma grande multinacional e Verinha é escritora).

 

 

 

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

MINHA CONVERSA COM GABI

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criança balançando 1

– Toc, toc, toc.

– Pode entrar Gabi. Estou na cozinha.

Gabi é uma menininha muito esperta, filha da vizinha e que está acostumada a bater na minha porta, antes de sair para a escola. Entra correndo em direção à cadeira onde estou sentada.

Tia! Óia o que eu touce pala a senhola! – diz sorridente na linguagem das crianças, sacudindo uma nota de R$ 10,00. – É da minha mesada. Quelo ajudá na campanha da manicule.

Abri os braços e dei-lhe um abraço bem apertado e demorado.

Tia, a senhola tá tisti?

mulher aflita

– Não querida. Só pensativa.

Mas o olho tá tisti. – insiste ela.

– Não pequena. É que entrou um cisco no meu olho.

A senhola vai quelê? É pouco?

– Claro que vou aceitar, Gabi. Com muita honra! Não é pouco não!

Mas ainda acho que a senhola tá tisti.

– Não docinho! Estou pensando na vida… Pensando em quantas pessoas boas existem no mundo, iguais a você… Quantas pessoas ricas… Quantas pessoas necessitadas… Muita diferença e muita INdiferença!

mulher chorando 1

E é claro que vou aceitar seu din-din! E sabe por quê?

Primeiro porque você me deixou muito feliz com sua doação e a respeito muito. Pode ter certeza que a Valéria vai ficar contente quando contar para ela.

Em segundo lugar, porque preciso somente de R$ 800,00. Então preciso de apenas 80 pessoas que doem R$ 10,00 como você fez! Parece fácil, né?… Mas não é nada fácil conseguir 80 amigos entre meus 519 contatos da internet.

Em terceiro lugar porque essa doação vai fazer você se sentir muito bem… Vai deixá-la alegre… Mais leve… Não é verdade? – pergunto encostando meu dedo indicador em seu coraçãozinho.

Calo tia. To muito faceila em ajudá a Valélia. – diz timidamente.

sorriso

– Então… Em quarto e último lugar aceito para que esse seu gesto de amor se torne um hábito na sua vida! Assim, você nunca mais vai querer de parar de ajudar as pessoas que precisam. Fazendo essa corrente do bem, talvez consigamos diminuir o egoísmo no mundo.

– Ego… O quê, tia?

– Egoísmo, minha pequena, mas isso é assunto de adulto. Não quero que você se preocupe, tá?

Hã hã. Entendi tia. Agola tenho escolinha. Ouví balulo na póta. Minha mãe tá me espelando. – diz beijando-me no rosto e saindo correndo.

correr

Ao chegar à porta da saída, voltou correndo até a cadeira onde eu estava cabisbaixa, colocou uma mãozinha gorducha no meu joelho, com a outra levantou meu queixo, olhou bem nos meus olhos e disse:

Tia, Deus tá vendo tudo o que a senhola tá fazendo.

Deu-me outro beijo e saiu saltitante porta a fora.

Ai. Caiu outro cisco no meu olho…

choro

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

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TERMO DE ENTREGA DE JÓIA

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JÓIA

Declaro para os devidos fins que nesta data entrego uma joia.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO não é uma joia qualquer. É rara. As outras pedras preciosas também não são fáceis de encontrar. Devo escolher um local em terreno público ou privado. Posso encontrar as gemas em praticamente qualquer lugar: no leito de um riacho seco ou no sopé de uma montanha. São bons lugares para começar. Obtenho a permissão do proprietário ou supervisor do terreno e cavo ou remexo a terra.

JÓIA 1

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é rara porque é única. Não existe cópia, réplica, gêmea ou clone. Às outras, preciso cavar o equivalente a um balde de amostra iniciando o procedimento de prospecção no lado de entrada de uma curva do riacho e preencher esse balde com 5 litros de rocha e bocado de solo usando uma pá.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é amiga das boas, que chora e ri junto com a gente e não tem vergonha de deixar as lágrimas molharem seu rosto e borrar a maquiagem. Às outras, preciso colocar uma pequena porção da amostra na peneira com água suficiente para cobrir o solo e as rochas dentro dela; fazer movimentos circulares de forma a provocar redemoinhos na peneira para limpar a sujeira das rochas. Continuando o movimento giratório, deixo derramar água sobre a borda da peneira, eliminando a lama e a sujidade, deixando apenas as rochas.

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ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO não é imitação, plágio e nem foi reproduzida por métodos tecnológicos. Às outras, preciso adicionar mais água à peneira e limpar as rochas novamente com o movimento giratório, lançar as pedras para cima de um pano e colocar à parte todas as pedras brilhantes ou translúcidas. Descarto todas as outras. Repito novamente o processo com a peneira até que todo meu “tesouro” esteja separado e limpo.

amiga

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é um modelo (que deve ser seguido por todos) de amizade sincera, servir sem aguardar retorno e de esbanjamento de alegria. Às outras, devo secá-las com um pano limpo, classificá-las usando um manual ou guia que permita identificá-las e enrolar as pedras individualmente em pedaços de pano limpo e seco.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO foi lapidada numa infância feliz, numa juventude sadia e numa maturidade materna, estudantil, laboriosa e religiosa. Às outras, depois de secá-las, devo armazená-las em recipiente sólido para evitar danos.

amigas

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO tem seu caráter moldado na alegria e no carinho.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é baixinha, fofa e muito simpática e que até agora (já se passaram oito anos de coleguismo), não consegui descobrir como Deus conseguiu colocar tantas qualidades num só corpo.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO, esbanja alegria e otimismo, mesmo quando, em algumas fases de sua vida, passou por alguns problemas financeiros, domésticos, etc. como acontece com quase todos os normais.

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ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO não sabe dizer ‘não’ e tem sempre um tempo livre para ajudar os colegas a resolverem os problemas encontrados no cartório (e de informática), mesmo quando está abarrotada de serviço.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO chama-se Rosana. É com lágrimas nos olhos que dela me despeço, mas fico feliz em saber que ficará em ótimas mãos. Cuidem dela com carinho. Rosana, em retorno, devolverá amor em dobro!

Boa sorte, colega! Vá com Deus! Continue multiplicando amizades e alegrando nossas vidas!

mulher agradecendo Deus

Abraço da Si

abraço

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO,  A MULHER QUE RI e PCC,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

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O FOTÓGRAFO

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          foto

           

            Saio pelas dunas, jogando para cima, areia morna com os pés desnudos. Atravesso-as em direção ao mar e paro boquiaberto.  Levo alguns segundos para lembrar-me que estou com equipamento fotográfico Canon T4i, pendurado ao pescoço.

            Vejo-a de costas caminhando também em direção ao mar. Cerca de 30 anos, pele bronzeada, corpo perfeito, cheinho, bumbum arrebitado, coxas grossas, cintura fina, biquini vermelho, longos cabelos pretos cacheados.

            Que foto linda! Ah se ela desse uma caminhadinha… Mais alguns passos, por favor… Vai… Assim… Vá com seus pezinhos delicados encontrar-se com a água gelada da pequena onda que de tão ínfima nem dá para se chamar de onda… A espuminha branca está quase a cobrir seus dedinhos dos pés… Vai mais um pouquinho… Estou em êxtase, quase atingindo o clímax, o auge, o grau máximo… A foto ficará perfeita!

ok

            Parece-me que tudo está em câmara lenta: seus passos, a água, as gaivotas ao seu redor… Mais um passinho por gentileza para enquadrá-la com perfeição nessa aliança de luz e modelos perfeitos. Agora! Vou atingir o ápice… O gozo da foto perfeita… Vai… Vai…

            Um cachorro late no seu lado direito. Ela vira-se em sua direção. Entorta seu pezinho, pernas, cintura, tronco, busto, braço, pescoço, queixo… Enfim, ficou toda retorcida para apreciar o maldito cão, antes de eu fazer a melhor fotografia de minha vida!

            – Droga de cão! – resmungo desapontado.

            Frustrado, desmonto o equipamento guardando-o no estojo. Passo raivosamente o zíper, deixando tudo bem fechado.

            Caminho de volta às dunas.

            – Quem sabe amanhã conseguirei uma boa foto.

choro de amor

            Ao atingir os cômoros de areia, dou mais uma olhada para trás a fim de despedir-me do mar. Vejo a morena do biquini vermelho estender seus braços em direção ao cão, sorriso largo com dentes brancos contrastando com seu bronzeado.

            Ela corre para abraçá-lo e ele corre para seu abraço. Seus longos cabelos cacheados balançam num cadenciado perfeito com suas pernas e ancas… Cabelos e ancas… Ancas e cabelos… Cabelo e sorriso… Sorriso e cabelo… Quanta perfeição!

            Afastam-se correndo e brincando pela beira da praia. Não tive tempo de fazer a foto.

            Mais uma foto magistral que se vai.

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Florianópolis, outubro/2015.

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

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O Homem da Bengala

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Bengala

 

            Bom dia, caro escritor!

            Ontem por volta do meio dia, estava perambulando pela nossa cidade morena, cantarolando como sempre faço. Ao chegar perto do Supermercado Extra, vi uma silhueta do meu lado esquerdo e olhei. Era um homem, cabelos grisalhos, portando uma bengala, parado na calçada.

            “- Parece que conheço esse senhor, mas de onde?”

mulher em dúvida

           Pensei… Pensei… E pensei… Já sei! É muito parecido com o escritor Pedro Mattar! Só pode ser ele! Mas eu nem conheço pessoalmente o Pedro Mattar! Conheço alguns de seus textos e sou sua fã. Apenas isso.

            Que apenas isso que nada! Eu fiquei eufórica, feliz e… tímida. Não o cumprimentei. Primeiro porque poderia não ser o Pedro Mattar. Só o conheço de uma pequena foto postada no Facebook. Mas e daí que não fosse! Era só perguntar com educação: “- Bom dia, por acaso o senhor é o grande Pedro Mattar?” Tudo o que poderia receber como resposta seria um “não” ou um “sim”. Mas não arrisquei e me arrependi.

mulher dor

            E em segundo lugar porque fiquei com vergonha. O que uma simples transeunte tem de importante para conversar com um nobre jornalista?

            Ai que raiva de mim mesma! Deixei passar uma grande oportunidade de apertar sua mão e dizer-lhe pessoalmente: SOU SUA FÃ.

amor 1

            Depois da euforia de vê-lo, veio a tristeza de não tê-lo cumprimentado.

            Ah como sou idiota!

            Naquele momento não precisava ter grande debate ou imenso diálogo, era só cumprimentá-lo, dizer: TENHO A HONRA DE SER SUA FÃ e sair de fininho, sorridente.

mulher sorrindo

            Pronto! Estaria resolvida a questão e ficaria feliz pelo resto da semana! Mas isso não ocorreu.

            Afinal, era o Pedro Mattar ou não?

Simone Possas Fontana

julho/2015

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos romances MOSAICO e a MULHER QUE RI,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

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RESPOSTA DO PEDRO MATTAR:

             Minha prezada Simone, meu perfil não combina com essa imagem que você descreve com muita generosidade. Seu texto justifica colocá-la como protagonista, jamais como fã. Sem conhecê-la, há um bom tempo você me mandou um e-mail elogiando o que escrevi, não lembro a data, e observei em resposta que você deveria encaminhar seus textos ao editor do mesmo jornal. Cheguei a falar com ele, um amigo que acabamos perdendo nesse período. Depois descobri que você já percorria um trajeto literário significativo e merece mais que ser uma simples fã. Especialmente de um sujeito sem nenhum compromisso com a escrita e que escreve pra se divertir.

            Mesmo assim fico grato por sua atenção, é bom saber que que existem os que se identificam com as minhas abordagens. Sua falta de coragem foi uma pena, gostaria de tê-la conhecido.

            Era eu.

            Forte abraço.

 

DE FAXINEIRA PARA FAXINEIRA

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faxina

           O melhor produto de limpeza doméstica é, em minha opinião, o desengordurante M.M. Quem me apresentou esse “lindo” foi a Celinha, uma moça que fazia faxina semanalmente na minha casa. Disse que ela FAZIA faxina. FAZIA até eu conhecer o M.M. Depois que o conheci, dispensei os serviços da Celinha.

            O desengordurante M.M. facilita e agiliza a limpeza do chão, dos móveis, dos espelhos, vidros, geladeira, fogão, armários, etc. Com ele limpo também calçados e bolsas. É ma-ra-vi-lho-so!

            Não fico com esse magnífico achado apenas para mim: propago-o para amigas e familiares. Meu marido fala que se eu recebesse algum pagamento do M.M. pelas propagandas que faço, estaria faturando bem!

dinheiro

            Depois de tudo limpo, como é bom caminhar pela casa e sentir o cheirinho da limpeza; todos sorriem mais, respiram melhor, tornam-se mais felizes sem a sujeira.

            E foi pensando nesse antônimo – limpeza/sujeira, que me lembrei da política. Ah! Como seria bom limpar a sujeira existente; passar o poderoso M.M. em todos os políticos “caras-de-pau”. Claro que existem exceções, mas a corrupção que me envergonha, prolifera: fraudes em licitações, em concursos, em eleições, etc. Será que existe M.M. para acabar com essa sujeira? Assim, como a limpeza do lar, seria muito bom trabalhar, estudar, caminhar, sorrir, enfim, viver, sabendo que a corrupção foi exterminada pelo M.M. Dessa maneira, os impostos pagos dariam para manter a máquina administrativa, melhorar as áreas de saúde, segurança, educação, tanto defasadas, e até sobraria para atender ao esporte e cultura.

            Quimera… Vou voltar para minha faxina doméstica!

mulher lavando louça

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos romances MOSAICO e a MULHER QUE RI,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

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Minhas Anotações:

Simone

– Texto escrito em dezembro/2014.

“SCARPIN” VERMELHO

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recepcionista

 

            – RM001! RM001!

            Putz! É minha senha que está sendo chamada. RM é para Ressonância Magnética. Ontem quando estive neste laboratório, minha senha era MR007 (MR = Marcar Ressonância).

            Apresso-me a acompanhar o enfermeiro que me indica o elevador. Entramos. Vejo no monitor: 55. Andar 55? Não pode ser. Será que existe algum prédio nesta cidade com 55 andares? Deve ser algum código.

            – Usa “piercings”? Não. Marca-passo? Não. Claustrofóbica? Não. Algum metal pelo corpo? Brinco, anel, pulseira, corrente? Não.

            Saímos do elevador. Algumas paredes são de vidro e enxergo pessoas caminhando na calçada da rua. Vejo apenas da cintura para baixo. Ah! Entendi: aquele 55 que vi no elevador não era 55; era SS (Subsolo).

            – A senhora coloca essa roupa e esse sapato. Seus pertences devem ser guardados neste armário com chave. Já volto.

enfermeiro

            Depois da roupa trocada, acompanho o rapaz até outra sala para esperar minha vez de entrar na famosa máquina. A sala tem uma cama e uma “cadeira do papai”. Escolho essa última para sentar. Tudo muito branco e limpo. Na parede um relógio: 07:50 horas. 23ºC. Já estou com 13 horas de jejum. Numa mesinha, um medidor de pressão e um desfibrilador. Será que usam esse aparelho aqui? Alguém passou mal do coração ao usar a temida máquina e tiveram que utilizar o desfibrilador? Hum… Os minutos passam rapidamente. Olho cada detalhe da sala. Estou com frio, mas o termômetro continua com 23ºC. Ergo minhas pernas para cima da poltrona e ali fico encolhida até às 08:25 horas, quando uma moça vem me buscar para encaminhar-me à horrorosa máquina.

enfermeira

            – Deite-se aqui em decúbito dorsal, encaixe seu ombro esquerdo aqui. Assim. Pronto! Vou colocar protetores de ouvidos na senhora porque o barulho é muito alto. Aqui na sua mão direita estou colocando uma campanhia. Se quiser que pare o exame, aperte-a com força. NÃO PODE SE MEXER!

            – Estou com frio.

            Cobre-me com lençol e com um cobertor, das axilas até os pés.

cobertor

            Uma espécie de esteira leva meu corpo para o interior da máquina. “Não devo me mexer”, a enfermeira me disse.

            O barulho começa. TUTZ… TUTZ… TUTZ… Contínuo. Fecho os olhos. Não gosto do que vejo. Parece que estou voando no escuro. Abro os olhos. Só vejo uma parte do túnel branco. Não posso virar o rosto para o lado esquerdo ou direito; não posso espichar o queixo para cima para ver até onde o túnel vai ou ver o que tem atrás de mim; não posso baixar o queixo para tentar enxergar meus pés, porque NÃO DEVO ME MEXER. Somente mexo os olhos de um lado para o outro ou para cima e só vejo o teto branco do túnel a cerca de 20 cm do meu rosto. É um espaço muito pequeno. O barulho muda: TROOOM… TROOOM… TROOOM… Forte e contínuo. Não gostei dessa primeira impressão. Aumenta a velocidade dos batimentos cardíacos. Meu peito sobe e desce rapidamente, acompanhando a respiração. NÃO DEVO ME MEXER, mas não quero mais ficar aqui neste lugar apertado! Quero sair! Parem com essa merda, por favor! Vou apertar a porra desta campanhia e acabar com esse exame! Não quero mais! Que vontade de gritar, mas não posso mexer a boca! Tenho que acalmar-me. Porque meu coração e respiração estão tão agitados? Estou assustada! Sou claustrofóbica e não sabia? Como poderia saber?! Nunca havia ficado presa num caixão! Pelo menos aqui tem ar para respirar. Vou apertar a campanhia! Tenho que me acalmar! Se apertar, será que as enfermeiras vêm salvar-me rapidamente? Se apertar, interrompe o exame e terei que retornar para refazer essa merda. Já sei: vou rezar. Meu Pai Querido, por favor, faça com que me acalme e não passe mal dentro desta maldita máquina. Amém! Nunca ouvi falar de alguém que tenha morrido por fazer ressonância magnética. Todo mundo faz isso, caceta! O barulho muda novamente: BIP… BIP… BIP… A respiração volta ao normal. Ah que bom! Obrigada, Senhor! Resolvo cantar: “Mãe do Perpetuo Socorro! Venho a Ti e recorro. Vem ó Mãe me valer! Mãe vem me socorrer…”. E agora? Já rezei e cantei. O que mais posso pensar? Não quero lembrar que estou nesta medonha máquina, fazendo esse exame horrível, olhando para um teto branco, medindo 20cm X 20cm. Tenho que relaxar. Já sei: vou pensar no livro que estou lendo. Não consigo lembrar o título e nem o autor. Sei os nomes dos personagens: Clarinha que é noiva do Adriano, que é irmão do Fabrício, que é apaixonado por Selena, que é mãe da Selma e do bebê que não recordo o nome. Como é o nome da mãe da Clarinha? Não importa. O que interessa é que estou conseguindo relaxar. TUTZ… TUTZ… TUTZ… E essa porra deste exame? Não vai terminar nunca? Estou com vontade de chorar. Retornou o desejo de gritar mandando parar tudo. Quero ir embora para minha casa! Não vou deixar me abater. Necessidade louca de mexer o dedão do pé, as mãos, soltar a campanhia. Não vou me mexer, para não ter que refazer esta porcaria. Tenho que pensar em outra coisa. Quais os livros que tenho na estante? Qual será o próximo livro que lerei? Vou ler “A Travessia”, mas não lembro quem é o autor, parece-me que começa com “Y”.

livraria

            Acho que meu ombro não está bem encaixado. Vou aproximá-lo alguns milímetros do aparelho.

            – Senhora! Por gentileza! Não se mexa! – grita a voz da médica.

            – Fudeu.  – sussurro.

            – A senhora mexeu novamente. Não se mexa, por favor. Estamos quase no final do exame. Já vai acabar!

            Ah! Que frase maravilhosa de se escutar: “já vai acabar”! Concebo em minha mente: já vai acabar – já vai acabar – já vai acabar. Estou aqui há quanto tempo? O mundo lá fora continua e aqui estou presa nesta máquina cruel, sem poder me mexer e escutando este barulho dos infernos! O que vou pensar agora para distrair-me? Vou contar os BIPs. Contei 60. 60 segundos? Será que é uma sequência de 1 minuto para TUTZ-TUTZ-TUTZ, mais uma sequência de 1 minuto para TROOOM-TROOOM-TROOOM e mais uma sequência de 1 minuto para BIP-BIP-BIP? 1 minuto que parece 1 hora! Por quanto tempo essa máquina vai ficar “escaneando” meu ombro esquerdo?

relógio

            De repente os ruídos diminuem de volume até cessarem por completo. Uma luz se acende e a esteira com meu corpo saem da máquina dos infernos.

            – Tudo bem, senhora?

            – Tudo ótimo! Terá que repetir ou deu tudo certo?

ok

            – Tudo certo. A senhora pode trocar de roupa naquela sala, aguardar um pouco e já lhe entregarei os resultados.

            Troco de roupa, sento-me na cadeira do corredor e aguardo o resultado. Na parede, um aparelho para os pacientes darem notas aos funcionários pelo atendimento. Não opino. Levanto-me. Olho o relógio. 14 horas de jejum.

            – Moça, vou à outra sala comer umas bolachinhas.

bolacha

            – OK.

            Só de raiva vou beber todo o café e comer todas as bolachas! Tomo três cafezinhos e como cinco bolachas de água e sal.

            – Senhora, nesta sacola estão seus exames e um CD. Assine aqui, por gentileza, confirmando o recebimento destes. Esse outro papel aqui, é um protocolo para a senhora retirar o Laudo Médico daqui três dias.

            Saio do laboratório pela escadaria que me leva do subsolo ao térreo; não quis entrar no elevador. Feliz por sair da máquina opressora, mas para melhorar e ficar saltitante de alegria, somente entrando agora numa sapataria e comprando um lindo “Scarpin” vermelho. Eu mereço!

scarpin vermelho

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos romances MOSAICO e a MULHER QUE RI,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

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Minhas Anotações:

– Conto escrito em julho/2014.

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