Conto

AS OITO ROSAS

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            Eram oito rosas reunidas. O dia estava perfeito: sol e calor! O que mais uma rosa poderia querer?

            Tinha rosa com pétalas amarelas, brancas, pretas e mechadas.

            Tinha rosa de todas as idades: de trinta a oitenta anos. Tinha desde a rosa exuberante por sua longa experiência de vida até a rosa novata e aprendiz.

            Tinha rosa avó, rosa mãe, rosa madrasta e rosa tia.

            Tinha rosa solteira, casada, separada, viúva e rosa namorada.

            Tinha rosa cozinheira, psicóloga, professora, funcionária pública, do lar, aposentada, artesã, pintora, tradutora, artista e política.

            Todas tinham algo em comum: o sorriso e o amor pela literatura!

           

           Tudo começou porque a rosa mais nova estava triste, pois percebera que o tempo ia passando rapidamente, ela se envolvia com afazeres diversos e não estava mais se encontrando com as outras rosas. Então resolveu chamar as rosas-amigas para uma reunião festiva com café, tapioca e muita conversa boa.

            A rosa anfitriã, afável e cordial como lhe é peculiar, conseguiu que todas as rosas se sentissem como se estivessem em seu próprio jardim! Decorou com muito carinho a mesa do lanche com as cores da Inglaterra: vermelho, azul e branco. Essas cores predominavam nas toalhas, nas louças, nos arranjos florais, nas cadeiras e até nos guardanapos e nos cartões com os nomes de cada rosa. Uniu elegância e simplicidade; graciosidade e singeleza; exuberância e candura.

            Às quatro horas da tarde do sábado, as rosas foram chegando. Cada uma trazia um “agradinho” para o lanche: queijo, doce de leite, chocolate, morangos, etc.

           

            A rosa psicóloga trouxe para a rosa anfitriã um lindo tapete de crochê confeccionado por ela mesma. Outra trouxe arranjos em origami. E todas chegavam com livros de sua autoria para trocar entre elas.

            Assim que todas chegaram, a rosa anfitriã pegou uma placa que estava na parede e mostrou para lerem. Todas aprovaram com muita alegria. Na placa estava escrito: proibido falar sobre religião e política.

            Após muitas gargalhadas, a reunião festiva prosseguiu.

            Nem todas as oito rosas se conheciam pessoalmente, claro. Algumas se conheciam apenas pela internet, mas a alegria reinava como se amigas de infância fossem. Às vezes conheciam a obra, mas não conheciam a autora! E esse encontro era a oportunidade que faltava para saber quem é ou pelo menos ter uma noção da rosa-autora.

 

           

           Todas as rosas falavam entre si, conversavam sobre tudo, desde artesanato, culinária, maquiagem e família, até relacionamentos conjugais, sexo, depressão e suicídio. E como não poderia faltar num encontro de rosas-escritoras, falaram em livros, capítulos, prefácio, editoras, etc.

            Nessa festa apareceu até um cravo! Mas esse cravo não brigou com a rosa como na cantiga popular infantil. Era um cravo estrangeiro e como ele não entendia muito bem a língua portuguesa, não se escandalizou com as conversas que ouviu!

            Ao lado da mesa do lanche, foi preparada outra onde foram colocadas as obras literárias para a troca entre as rosas. Após escolher o livro, cada rosa-leitora dirigia-se até a rosa-autora  para a sessão de dedicatória, além da apresentação de vários projetos literários das rosas poderosas e criativas, tudo registrado com fotos feitas pelo gentil cravo.

            No final, todas as sorridentes rosas reuniram-se num glamoroso e colorido ramalhete. Ou num jardim? Ah! Não importa! O que interessa é que estava tudo perfeito!

 

 

Simone Possas

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI, PCC e O PROMOTOR

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

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CALCE TÊNIS

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            Estava lendo a interessante crônica “Alexandria – A Queda”, do Francisco Marshal, no suplemento DOC do jornal Zero Hora de Porto Alegre, a qual fala de um livro chamado “A Biblioteca Desaparecida”, do Alexandre Cânfora.  Pensando sobre tudo isso: Alexandria, bibliotecas, livros, importância da leitura como fonte de desenvolvimento… Resolvi escrever um texto.

            Como eu procedo para escrever um texto? Vou juntando e largando num papel, ou melhor, no computador, palavras toscas, rústicas, soltas, que parecem sem sentido, mas são as palavras principais, essenciais. Depois que larguei todas essas palavras, formo frases e pego essas frases e junto com as palavras toscas. Para isso acontecer não posso ter interrupção; tenho que ficar concentrada. Vou formando essas frases na minha mente e vou juntando nas palavras toscas, até formar um texto.

            Até que fui interrompida:

           

            – Dona Simone o que a senhora acha de eu descongelar um peixe para o jantar de hoje?

            Não sei nem o que eu vou comer no almoço! Vou ficar preocupando-me com o jantar? – penso comigo.

            – Neguinha, estava pensando em ligar para X e Y para sairmos amanhã a noite e tomarmos uma cervejinha. O que acha?

            O que eu acho? O que eu acho é que não posso simplesmente ficar sem responder para pessoas tão queridas! Não consigo ficar concentrada num texto e deixando pessoas ao meu redor tentando falar comigo e eu colocando uma parede invisível entre nós. Não posso. Não consigo fazer isso! Facilmente desconcentro-me do texto e respondo às pessoas que estão a minha volta aguardando pela minha resposta, mas isso faz com que eu perca o fio da meada.

           

            Como fazer para retornar ao fio da meada? Tentei relembrar as frases que eu precisava juntar nas palavras toscas, mas as frases não vieram! Levantei e pensei: – Quem sabe se eu fumar um cigarro ou um charuto, servir um uísque e ir à sacada e olhar para o Mediterrâneo como vi fazer em um filme do Hemingway? Não dará certo porque aqui não tenho o Mediterrâneo. Não fumo. Uísque talvez. De vez em quando. Ou um vinho? Mas isso não iria fazer as frases voltarem à minha mente.

            O que mais posso fazer? Já sei, pensei comigo. Calçarei tênis! Isso! Vou calçar tênis e ir para a rua caminhar. Pensar na vida; pode ser que as frases voltem.

            Foi o que fiz. Coloquei o tênis e andei cerca de dez quarteirões. Fui indo… Indo… Fiquei relembrando de todas as palavras toscas e de todas as interrupções, mas as frases não vieram; as benditas frases que eu preciso juntar nas palavras toscas!

            Ao final dos dez quarteirões, já cansada de caminhar, abaixei minha cabeça quase encostando nos joelhos, dei uma esticada, uma alongada no corpo, retornei a posição inicial, respirei fundo uma meia dúzia de vezes… Enchia o pulmão e soltava… Fui me acalmando… Retornei para casa… Mais dez quarteirões de retorno. Lembrei-me das palavras toscas e não é que as frases foram surgindo?!? As frases foram se moldando na minha mente; foram se juntando nas palavras toscas e foi formando aquele texto inicial; exatamente aquele que eu queria! Pronto!

           

            Essa é uma tática superpoderosa para resolver alguns problemas: calce o tênis! Não está conseguindo dinheiro para pagar as contas? Calce tênis. Está com falta de concentração para estudar? Calce tênis. Tem alguma questão para resolver? Calce tênis. Alguma dúvida para esclarecer? Calce tênis. Está difícil de explicar? Calce tênis.

            Calce tênis e aproveite para olhar as árvores, escutar os pássaros, desejar um bom dia e conversar com as pessoas que encontrar em seu caminho.

            Calce o tênis e libere a endorfina e a serotonina que são analgésicos naturais produzidos com a atividade física, dão aquela sensação de bem estar, regulam as emoções, reduzem o estresse e a ansiedade, enfim trazem a tal felicidade!

            Eu calcei o tênis e resolvi meu problema!

           

            Retornando ao conjunto de palavras toscas, já estava quase chegando em casa e pensando:

            – Vou para o computador e jogo todo esse texto que está pronto na minha cabeça.

            Ao chegar em frente ao prédio onde moro, percebi que não tinha energia elétrica. O que será que aconteceu? O elevador não funciona. Como vou subir tantos andares pela escada após uma caminhada pesada como essa? 

            Vou dizer o que aconteceu: os danados de dois pombinhos apaixonados resolveram namorar nos fios de energia e deu um curto – ou seja lá o nome que for. Deu um estouro muito forte. Parece que queimou o transformador e a energia do prédio estava apenas em uma fase. E aí fiquei no térreo descansando e esperando a energia voltar ao normal.

            E o meu texto? Irá todo para as cucuias de novo? Do jeito que sou desconcentrada, ele certamente sumirá da minha memória rapidamente! Será um fracasso! Já ia entrar em pânico quando lembrei que estava com o celular e aproveitei-me do gravador de voz e salvei o tão esperado texto!

 

 

Simone Possas

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Criticartes,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

MILTON E VERINHA

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Ela o avista da sua sala e criando coragem encaminha-se até ele.

– Oi. – riscando o chão com o bico do sapato e olhando o que desenhou.

– Oi. O que foi? Nunca viu alguém do lado de fora da sala de aula? – ele responde rudemente, com as mãos cruzadas nas costas e encostado na parede.

– Sim. Já o vi várias vezes encostado nesta parede e sempre fiquei curiosa para saber porque você ficava aqui fora ao invés de lá dentro? O que faz aqui?

– A professora me mandou sair.

– Você estava incomodando a aula?

– Ah! Ela disse que sim. Estava tudo muito quieto, mas queria dar um cascudinho na cabeça de um, beliscar o outro, queria falar, falar, falar…

– Ah tá! Queria chamar a atenção, né?

– Você acha? Pois que seja! – diz emburrado.

– Como se chama?

– Milton.

– Milton, se eu fosse psicóloga ou terapeuta diria que você vem de um lar turbulento, com um pai que bebe muito e após beber fica violento. Violento ao ponto de bater na esposa e nos filhos. Acertei?

– Hã? – diz o menino arregalando os olhos. – Até parece que você vai lá na minha casa e assiste as brigas!

– Viu? Acertei! Mas não fique triste, não! Deixe as brigas para o ambiente de sua casa, já que não pode evitar. Para cá traga apenas seus livros e a vontade de aprender, seu bobo! Está perdendo seu tempo!

– Hã hã. Obrigado Verinha. – diz de cabeça baixa, desta vez sem arrogância.

– Verinha? Como você sabe meu nome?

– Vi seu nome naquele cartaz ali. – apontando com o queixo para o cartaz na parede com fotos e nomes dos melhores alunos da escola. – Você é a melhor em tudo, né?

– Não Milton. Não sou melhor em tudo, mas gosto de estudar e aqui me sinto segura e tranquila. Não importa se tenho problemas em casa ou não. Quando aqui chego, me transformo. Vejo minhas amigas, conversamos, trocamos ideias, estudamos, damos risadas!

– Hum… Que bom. – responde o menino

– Temos um grupo de estudo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Se você quiser participar, será bem vindo.

– Verdade? Mas não sei nada! Não vou ajudar em nada!

– A princípio você vai aprender! Leva suas dúvidas e vamos ajudar a fazer as tarefas!

– Verinha… tem uma professora na porta de sua sala, com cara de brava, com os braços cruzados, olhando para cá.

– Oh! É minha professora! Nossa! Já se passaram quinze minutos que estamos conversando!

E voltou correndo para a sala de aula.

 

(Milton tornou-se engenheiro químico de uma grande multinacional e Verinha é escritora).

 

 

 

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

MINHA CONVERSA COM GABI

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criança balançando 1

– Toc, toc, toc.

– Pode entrar Gabi. Estou na cozinha.

Gabi é uma menininha muito esperta, filha da vizinha e que está acostumada a bater na minha porta, antes de sair para a escola. Entra correndo em direção à cadeira onde estou sentada.

Tia! Óia o que eu touce pala a senhola! – diz sorridente na linguagem das crianças, sacudindo uma nota de R$ 10,00. – É da minha mesada. Quelo ajudá na campanha da manicule.

Abri os braços e dei-lhe um abraço bem apertado e demorado.

Tia, a senhola tá tisti?

mulher aflita

– Não querida. Só pensativa.

Mas o olho tá tisti. – insiste ela.

– Não pequena. É que entrou um cisco no meu olho.

A senhola vai quelê? É pouco?

– Claro que vou aceitar, Gabi. Com muita honra! Não é pouco não!

Mas ainda acho que a senhola tá tisti.

– Não docinho! Estou pensando na vida… Pensando em quantas pessoas boas existem no mundo, iguais a você… Quantas pessoas ricas… Quantas pessoas necessitadas… Muita diferença e muita INdiferença!

mulher chorando 1

E é claro que vou aceitar seu din-din! E sabe por quê?

Primeiro porque você me deixou muito feliz com sua doação e a respeito muito. Pode ter certeza que a Valéria vai ficar contente quando contar para ela.

Em segundo lugar, porque preciso somente de R$ 800,00. Então preciso de apenas 80 pessoas que doem R$ 10,00 como você fez! Parece fácil, né?… Mas não é nada fácil conseguir 80 amigos entre meus 519 contatos da internet.

Em terceiro lugar porque essa doação vai fazer você se sentir muito bem… Vai deixá-la alegre… Mais leve… Não é verdade? – pergunto encostando meu dedo indicador em seu coraçãozinho.

Calo tia. To muito faceila em ajudá a Valélia. – diz timidamente.

sorriso

– Então… Em quarto e último lugar aceito para que esse seu gesto de amor se torne um hábito na sua vida! Assim, você nunca mais vai querer de parar de ajudar as pessoas que precisam. Fazendo essa corrente do bem, talvez consigamos diminuir o egoísmo no mundo.

– Ego… O quê, tia?

– Egoísmo, minha pequena, mas isso é assunto de adulto. Não quero que você se preocupe, tá?

Hã hã. Entendi tia. Agola tenho escolinha. Ouví balulo na póta. Minha mãe tá me espelando. – diz beijando-me no rosto e saindo correndo.

correr

Ao chegar à porta da saída, voltou correndo até a cadeira onde eu estava cabisbaixa, colocou uma mãozinha gorducha no meu joelho, com a outra levantou meu queixo, olhou bem nos meus olhos e disse:

Tia, Deus tá vendo tudo o que a senhola tá fazendo.

Deu-me outro beijo e saiu saltitante porta a fora.

Ai. Caiu outro cisco no meu olho…

choro

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

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TERMO DE ENTREGA DE JÓIA

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JÓIA

Declaro para os devidos fins que nesta data entrego uma joia.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO não é uma joia qualquer. É rara. As outras pedras preciosas também não são fáceis de encontrar. Devo escolher um local em terreno público ou privado. Posso encontrar as gemas em praticamente qualquer lugar: no leito de um riacho seco ou no sopé de uma montanha. São bons lugares para começar. Obtenho a permissão do proprietário ou supervisor do terreno e cavo ou remexo a terra.

JÓIA 1

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é rara porque é única. Não existe cópia, réplica, gêmea ou clone. Às outras, preciso cavar o equivalente a um balde de amostra iniciando o procedimento de prospecção no lado de entrada de uma curva do riacho e preencher esse balde com 5 litros de rocha e bocado de solo usando uma pá.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é amiga das boas, que chora e ri junto com a gente e não tem vergonha de deixar as lágrimas molharem seu rosto e borrar a maquiagem. Às outras, preciso colocar uma pequena porção da amostra na peneira com água suficiente para cobrir o solo e as rochas dentro dela; fazer movimentos circulares de forma a provocar redemoinhos na peneira para limpar a sujeira das rochas. Continuando o movimento giratório, deixo derramar água sobre a borda da peneira, eliminando a lama e a sujidade, deixando apenas as rochas.

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ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO não é imitação, plágio e nem foi reproduzida por métodos tecnológicos. Às outras, preciso adicionar mais água à peneira e limpar as rochas novamente com o movimento giratório, lançar as pedras para cima de um pano e colocar à parte todas as pedras brilhantes ou translúcidas. Descarto todas as outras. Repito novamente o processo com a peneira até que todo meu “tesouro” esteja separado e limpo.

amiga

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é um modelo (que deve ser seguido por todos) de amizade sincera, servir sem aguardar retorno e de esbanjamento de alegria. Às outras, devo secá-las com um pano limpo, classificá-las usando um manual ou guia que permita identificá-las e enrolar as pedras individualmente em pedaços de pano limpo e seco.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO foi lapidada numa infância feliz, numa juventude sadia e numa maturidade materna, estudantil, laboriosa e religiosa. Às outras, depois de secá-las, devo armazená-las em recipiente sólido para evitar danos.

amigas

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO tem seu caráter moldado na alegria e no carinho.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO é baixinha, fofa e muito simpática e que até agora (já se passaram oito anos de coleguismo), não consegui descobrir como Deus conseguiu colocar tantas qualidades num só corpo.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO, esbanja alegria e otimismo, mesmo quando, em algumas fases de sua vida, passou por alguns problemas financeiros, domésticos, etc. como acontece com quase todos os normais.

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ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO não sabe dizer ‘não’ e tem sempre um tempo livre para ajudar os colegas a resolverem os problemas encontrados no cartório (e de informática), mesmo quando está abarrotada de serviço.

ESTA JOIA QUE AGORA ENTREGO chama-se Rosana. É com lágrimas nos olhos que dela me despeço, mas fico feliz em saber que ficará em ótimas mãos. Cuidem dela com carinho. Rosana, em retorno, devolverá amor em dobro!

Boa sorte, colega! Vá com Deus! Continue multiplicando amizades e alegrando nossas vidas!

mulher agradecendo Deus

Abraço da Si

abraço

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO,  A MULHER QUE RI e PCC,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

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O FOTÓGRAFO

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          foto

           

            Saio pelas dunas, jogando para cima, areia morna com os pés desnudos. Atravesso-as em direção ao mar e paro boquiaberto.  Levo alguns segundos para lembrar-me que estou com equipamento fotográfico Canon T4i, pendurado ao pescoço.

            Vejo-a de costas caminhando também em direção ao mar. Cerca de 30 anos, pele bronzeada, corpo perfeito, cheinho, bumbum arrebitado, coxas grossas, cintura fina, biquini vermelho, longos cabelos pretos cacheados.

            Que foto linda! Ah se ela desse uma caminhadinha… Mais alguns passos, por favor… Vai… Assim… Vá com seus pezinhos delicados encontrar-se com a água gelada da pequena onda que de tão ínfima nem dá para se chamar de onda… A espuminha branca está quase a cobrir seus dedinhos dos pés… Vai mais um pouquinho… Estou em êxtase, quase atingindo o clímax, o auge, o grau máximo… A foto ficará perfeita!

ok

            Parece-me que tudo está em câmara lenta: seus passos, a água, as gaivotas ao seu redor… Mais um passinho por gentileza para enquadrá-la com perfeição nessa aliança de luz e modelos perfeitos. Agora! Vou atingir o ápice… O gozo da foto perfeita… Vai… Vai…

            Um cachorro late no seu lado direito. Ela vira-se em sua direção. Entorta seu pezinho, pernas, cintura, tronco, busto, braço, pescoço, queixo… Enfim, ficou toda retorcida para apreciar o maldito cão, antes de eu fazer a melhor fotografia de minha vida!

            – Droga de cão! – resmungo desapontado.

            Frustrado, desmonto o equipamento guardando-o no estojo. Passo raivosamente o zíper, deixando tudo bem fechado.

            Caminho de volta às dunas.

            – Quem sabe amanhã conseguirei uma boa foto.

choro de amor

            Ao atingir os cômoros de areia, dou mais uma olhada para trás a fim de despedir-me do mar. Vejo a morena do biquini vermelho estender seus braços em direção ao cão, sorriso largo com dentes brancos contrastando com seu bronzeado.

            Ela corre para abraçá-lo e ele corre para seu abraço. Seus longos cabelos cacheados balançam num cadenciado perfeito com suas pernas e ancas… Cabelos e ancas… Ancas e cabelos… Cabelo e sorriso… Sorriso e cabelo… Quanta perfeição!

            Afastam-se correndo e brincando pela beira da praia. Não tive tempo de fazer a foto.

            Mais uma foto magistral que se vai.

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Florianópolis, outubro/2015.

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

O Homem da Bengala

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Bengala

 

            Bom dia, caro escritor!

            Ontem por volta do meio dia, estava perambulando pela nossa cidade morena, cantarolando como sempre faço. Ao chegar perto do Supermercado Extra, vi uma silhueta do meu lado esquerdo e olhei. Era um homem, cabelos grisalhos, portando uma bengala, parado na calçada.

            “- Parece que conheço esse senhor, mas de onde?”

mulher em dúvida

           Pensei… Pensei… E pensei… Já sei! É muito parecido com o escritor Pedro Mattar! Só pode ser ele! Mas eu nem conheço pessoalmente o Pedro Mattar! Conheço alguns de seus textos e sou sua fã. Apenas isso.

            Que apenas isso que nada! Eu fiquei eufórica, feliz e… tímida. Não o cumprimentei. Primeiro porque poderia não ser o Pedro Mattar. Só o conheço de uma pequena foto postada no Facebook. Mas e daí que não fosse! Era só perguntar com educação: “- Bom dia, por acaso o senhor é o grande Pedro Mattar?” Tudo o que poderia receber como resposta seria um “não” ou um “sim”. Mas não arrisquei e me arrependi.

mulher dor

            E em segundo lugar porque fiquei com vergonha. O que uma simples transeunte tem de importante para conversar com um nobre jornalista?

            Ai que raiva de mim mesma! Deixei passar uma grande oportunidade de apertar sua mão e dizer-lhe pessoalmente: SOU SUA FÃ.

amor 1

            Depois da euforia de vê-lo, veio a tristeza de não tê-lo cumprimentado.

            Ah como sou idiota!

            Naquele momento não precisava ter grande debate ou imenso diálogo, era só cumprimentá-lo, dizer: TENHO A HONRA DE SER SUA FÃ e sair de fininho, sorridente.

mulher sorrindo

            Pronto! Estaria resolvida a questão e ficaria feliz pelo resto da semana! Mas isso não ocorreu.

            Afinal, era o Pedro Mattar ou não?

Simone Possas Fontana

julho/2015

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos romances MOSAICO e a MULHER QUE RI,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

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RESPOSTA DO PEDRO MATTAR:

             Minha prezada Simone, meu perfil não combina com essa imagem que você descreve com muita generosidade. Seu texto justifica colocá-la como protagonista, jamais como fã. Sem conhecê-la, há um bom tempo você me mandou um e-mail elogiando o que escrevi, não lembro a data, e observei em resposta que você deveria encaminhar seus textos ao editor do mesmo jornal. Cheguei a falar com ele, um amigo que acabamos perdendo nesse período. Depois descobri que você já percorria um trajeto literário significativo e merece mais que ser uma simples fã. Especialmente de um sujeito sem nenhum compromisso com a escrita e que escreve pra se divertir.

            Mesmo assim fico grato por sua atenção, é bom saber que que existem os que se identificam com as minhas abordagens. Sua falta de coragem foi uma pena, gostaria de tê-la conhecido.

            Era eu.

            Forte abraço.