Simone da Conceição Possas

MILTON E VERINHA

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Ela o avista da sua sala e criando coragem encaminha-se até ele.

– Oi. – riscando o chão com o bico do sapato e olhando o que desenhou.

– Oi. O que foi? Nunca viu alguém do lado de fora da sala de aula? – ele responde rudemente, com as mãos cruzadas nas costas e encostado na parede.

– Sim. Já o vi várias vezes encostado nesta parede e sempre fiquei curiosa para saber porque você ficava aqui fora ao invés de lá dentro? O que faz aqui?

– A professora me mandou sair.

– Você estava incomodando a aula?

– Ah! Ela disse que sim. Estava tudo muito quieto, mas queria dar um cascudinho na cabeça de um, beliscar o outro, queria falar, falar, falar…

– Ah tá! Queria chamar a atenção, né?

– Você acha? Pois que seja! – diz emburrado.

– Como se chama?

– Milton.

– Milton, se eu fosse psicóloga ou terapeuta diria que você vem de um lar turbulento, com um pai que bebe muito e após beber fica violento. Violento ao ponto de bater na esposa e nos filhos. Acertei?

– Hã? – diz o menino arregalando os olhos. – Até parece que você vai lá na minha casa e assiste as brigas!

– Viu? Acertei! Mas não fique triste, não! Deixe as brigas para o ambiente de sua casa, já que não pode evitar. Para cá traga apenas seus livros e a vontade de aprender, seu bobo! Está perdendo seu tempo!

– Hã hã. Obrigado Verinha. – diz de cabeça baixa, desta vez sem arrogância.

– Verinha? Como você sabe meu nome?

– Vi seu nome naquele cartaz ali. – apontando com o queixo para o cartaz na parede com fotos e nomes dos melhores alunos da escola. – Você é a melhor em tudo, né?

– Não Milton. Não sou melhor em tudo, mas gosto de estudar e aqui me sinto segura e tranquila. Não importa se tenho problemas em casa ou não. Quando aqui chego, me transformo. Vejo minhas amigas, conversamos, trocamos ideias, estudamos, damos risadas!

– Hum… Que bom. – responde o menino

– Temos um grupo de estudo todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Se você quiser participar, será bem vindo.

– Verdade? Mas não sei nada! Não vou ajudar em nada!

– A princípio você vai aprender! Leva suas dúvidas e vamos ajudar a fazer as tarefas!

– Verinha… tem uma professora na porta de sua sala, com cara de brava, com os braços cruzados, olhando para cá.

– Oh! É minha professora! Nossa! Já se passaram quinze minutos que estamos conversando!

E voltou correndo para a sala de aula.

 

(Milton tornou-se engenheiro químico de uma grande multinacional e Verinha é escritora).

 

 

 

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

 

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NÃO CANTO MAIS

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cantor

            Não sou cantora, mas gosto de caminhar pelas ruas, cantando, sempre que vou ao serviço, ou mesmo mercado, centro da cidade, médico, etc. Gosto de cantarolar. Às vezes a música em que penso cantar, desconheço a letra, então cantarolo. Por outras, não me vem na mente qualquer música, então canto o Hino Nacional Brasileiro, Hino à Bandeira, Hino da Independência do Brasil, Hino da Marinha (só sei uma parte).

            A impressão que eu tinha é que eu caminhando cantando dava a entender às pessoas que eu estava feliz, mesmo caminhando muitos quarteirões (não estava de carro), encarando ruas com aclives intensos, carregando sacola, tendo um sol forte batendo na cabeça, indo ao médico ou até enfrentando chuva (abria meu guarda-chuva e continuava cantando).

chuva

            Minha intenção era contagiar as pessoas com meu gesto. Fazê-las entender que poderiam cantarolar também mesmo com todos os afazeres do dia-a-dia, as preocupações, as ocupações.

            Mas acho que meu objetivo não vai ser alcançado. Palpito que não estou agradando. Ao invés de transmitir uma mensagem agradável, de paz e harmonia, estou fazendo o oposto. As pessoas me olham como se me dissessem:

            – Olha só aquela lá: caminhando cantando, toda sorridente pelas ruas; com certeza não está desempregada, tem seu din-din para pagar as contas de água, luz, mercado, etc. Assim é fácil!

dinheiro 1

            Ou ainda:

            – Hum… Lá vai aquela coroa sorridente… Sempre cantando… Certamente está muito bem de saúde, não tem dor, não tem familiares hospitalizados. Desse jeito é muito fácil! Assim até eu!

            Outros:

            – Viram essa mulher que passou por nós cantarolando? Na certa está saindo de sua casa. Ela tem uma casa para morar. Garanto que nem paga aluguel. Deve ter casa própria. Acho até pouco! Se fosse comigo? Se eu pudesse deixar meu barraco e tivesse minha casinha para morar? Eu cantaria e dançaria no meio da rua!

alegria

            É. Está decidido: vou parar de cantar.

            É com dor no coração que paro.

            Não quero que minha alegria seja conhecida como um deboche às mazelas da vida. Sou feliz porque estudei, passei num concurso e tenho meu emprego; sou feliz porque tenho saúde; sou feliz porque não preciso mais pagar aluguel; sou feliz porque tenho minha família e amigos; sou feliz porque amo e sou amada.  Devo ficar com a cara sisuda por causa disso? Carrancuda? Não seria ao contrário: se estou com problema, fico de cara emburrada, mas se estou feliz, fico com cara alegre?!?!

mulher dor

            Sou pecadora porque sou feliz? Não é esse o objetivo: nascer, crescer, estudar, trabalhar, ser feliz, trabalhar mais para ter uma qualidade de vida melhor, oferecendo um conforto para si e seus familiares?

            Vocês venceram: não canto mais (mas, vou continuar sendo feliz… muito feliz!).

mulher feliz

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

Eu e o PCC