MINHA CONVERSA COM GABI

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criança balançando 1

– Toc, toc, toc.

– Pode entrar Gabi. Estou na cozinha.

Gabi é uma menininha muito esperta, filha da vizinha e que está acostumada a bater na minha porta, antes de sair para a escola. Entra correndo em direção à cadeira onde estou sentada.

Tia! Óia o que eu touce pala a senhola! – diz sorridente na linguagem das crianças, sacudindo uma nota de R$ 10,00. – É da minha mesada. Quelo ajudá na campanha da manicule.

Abri os braços e dei-lhe um abraço bem apertado e demorado.

Tia, a senhola tá tisti?

mulher aflita

– Não querida. Só pensativa.

Mas o olho tá tisti. – insiste ela.

– Não pequena. É que entrou um cisco no meu olho.

A senhola vai quelê? É pouco?

– Claro que vou aceitar, Gabi. Com muita honra! Não é pouco não!

Mas ainda acho que a senhola tá tisti.

– Não docinho! Estou pensando na vida… Pensando em quantas pessoas boas existem no mundo, iguais a você… Quantas pessoas ricas… Quantas pessoas necessitadas… Muita diferença e muita INdiferença!

mulher chorando 1

E é claro que vou aceitar seu din-din! E sabe por quê?

Primeiro porque você me deixou muito feliz com sua doação e a respeito muito. Pode ter certeza que a Valéria vai ficar contente quando contar para ela.

Em segundo lugar, porque preciso somente de R$ 800,00. Então preciso de apenas 80 pessoas que doem R$ 10,00 como você fez! Parece fácil, né?… Mas não é nada fácil conseguir 80 amigos entre meus 519 contatos da internet.

Em terceiro lugar porque essa doação vai fazer você se sentir muito bem… Vai deixá-la alegre… Mais leve… Não é verdade? – pergunto encostando meu dedo indicador em seu coraçãozinho.

Calo tia. To muito faceila em ajudá a Valélia. – diz timidamente.

sorriso

– Então… Em quarto e último lugar aceito para que esse seu gesto de amor se torne um hábito na sua vida! Assim, você nunca mais vai querer de parar de ajudar as pessoas que precisam. Fazendo essa corrente do bem, talvez consigamos diminuir o egoísmo no mundo.

– Ego… O quê, tia?

– Egoísmo, minha pequena, mas isso é assunto de adulto. Não quero que você se preocupe, tá?

Hã hã. Entendi tia. Agola tenho escolinha. Ouví balulo na póta. Minha mãe tá me espelando. – diz beijando-me no rosto e saindo correndo.

correr

Ao chegar à porta da saída, voltou correndo até a cadeira onde eu estava cabisbaixa, colocou uma mãozinha gorducha no meu joelho, com a outra levantou meu queixo, olhou bem nos meus olhos e disse:

Tia, Deus tá vendo tudo o que a senhola tá fazendo.

Deu-me outro beijo e saiu saltitante porta a fora.

Ai. Caiu outro cisco no meu olho…

choro

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

membro da UBE/MS – União Brasileira de Escritores,

autora dos livros MOSAICO, A MULHER QUE RI e PCC,

graduada em Letras pela UCDB,

pós-graduada em Literatura,

contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

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