ÁGUA PELO RALO

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            Bom dia! Sou Ana, a faxineira. Creio que já nos conhecemos. Sou aquela faxineira doida que queria (e quer) fazer uma limpeza geral na política retirando o lixo do Congresso, Assembleias Legislativas e Câmara de Vereadores.

            Hoje é dia 25 de dezembro: Natal. Fui fazer minha caminhada matinal diária. Só porque é Natal não posso exercitar-me? Só porque é feriado não posso trabalhar? Posso sim, se eu quiser. Já pensou que alívio sentiria ao levantar-se depois das 11 horas da manhã e nada encontrar de vestígio de festa da última noite? Sem papel de presentes pelo chão e sem cinzeiros sujos. Louça lavada, casa varrida, roupas na máquina, almoço sendo preparado no fogão. Ufa! Proponho-me a fazer tudo isso. Não tenho preguiça e nem fico triste de trabalhar ou fazer cooper num feriado.

mulher correndo

            São 7h. Todos ainda dormem… Todos? Eu disse: todos? Enganei-me. Antes a rua permanecesse deserta do que encontrar uma dona de casa (ou faxineira como eu) desperdiçando água! Deparei-me com ela na primeira volta que dei no quarteirão (dou 5 voltas). Estava no pátio de sua casa com a mão enfiada entre os vãos da grade do portão de ferro e nas mãos, uma mangueira jogando água na calçada da rua!

            Entristeci-me com essa cena; sacudi a cabeça negativamente e continuei caminhando. Agora pasmem: nas segunda, terceira, quarta e quinta voltas que fiz no quarteirão, aquela senhora continuava jogando água na rua. Foram 2 km de caminhada em 30 minutos. E qual a quantidade de água que foi para o ralo nesse tempo?

            (Primeiro final:) Ah se eu tivesse uma câmera para bater foto neste instante! Na última volta percebi que ela ia fazendo um montinho de folhas de árvores, somente com a força da água! Quanta ignorância! Baixo a cabeça tristemente, aumento a velocidade da caminhada com passadas raivosas. Raiva? Mas hoje é Natal! Triste. Muito triste. Vou embora fazer minha faxina.

mulher chorando 1

            (Segundo final:) Atravesso a rua em direção à casa da senhora. Procuro uma vassoura e uma pá. Nada encontro. Agacho-me umas 3 ou 4 vezes e vou catando as folhas e colocando-as no lixo, com as próprias mãos. – Bom dia e feliz Natal! – despeço-me com um sorrisão. Feliz. Muito feliz.

mulher feliz1

            (Terceiro final:) Atravesso a rua em direção à casa da senhora, gritando: – FOGO! FOGO! ALGUÉM AJUDE, POR FAVOR! Um idoso aparece, lentamente… A rua antes deserta, logo está agitada por um grupo de 10 pessoas. 

            – Cadê o fogo? Não estou vendo. Porque está gritando fogo?

            – Amigos, obrigada por ter atendido meu pedido. Se eu tivesse gritado: “SOCORRO! ACUDAM! A VIZINHA ESTÁ JOGANDO ÁGUA PELO RALO!”, vocês teriam se aproximado? Precisava de alguma testemunha para ver este absurdo que estou vendo. Feliz Natal a todos! (Enquanto falava isso, percebo que todos se aproximam da mangueira com água, fazendo várias fotografias. Saio mansamente de cena. Vou fazer minha faxina.).

           mulher cozinhando

            É o meu jeitinho…

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos romances MOSAICO e a MULHER QUE RI,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo,

blog: simonepossasfontana.wordpress.com)

Minhas Anotações:

– Texto escrito em 25/12/2014.

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