RUÍDOS DA NOITE

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noite enluarada

 

            UÓÓÓÓÓÓÓMMMM… UÓÓÓÓÓÓÓÓMMM…UÓÓÓÓÓÓÓÓMMM… Esse som identifico como sirene de carro de patrulha. Vejo no relógio do criado-mudo que já são 01h53min. Estou acordada. Olhos bem abertos. Não consigo dormir. Fico imaginando um carro de polícia com um motorista solitário cumprindo seu dever ou acompanhado por mais um, dois ou três companheiros de farda. Estão na Avenida Afonso Pena em direção a um bar qualquer de um bairro qualquer. Lá encontram menores consumindo bebida alcoólica e droga. Acontece uma briga com faca e eles estão indo para resolver o problema. Ou será que esse som da sirena indica que estão retornando com os meliantes para a delegacia? Não sei. O que sei é que o policial está trabalhando enquanto sua família aguarda seu retorno em uma casa qualquer de um bairro qualquer. O som da sirene diminui. O carro se afasta.

polícia

            TRUUUUUUUUMM… TRUUUUUUUUUMM… TRUUUUUUUUUUMM… Uma moto passa acelerando seu possante motor. Na certa seu piloto saiu da faculdade, passou num barzinho para tomar um chope com a galera de amigos e agora se dirige para sua casa. Vá com Deus!

moto

            UUUUUUÁÁÁÁÁIIII… UUUUUUÁÁÁÁÁÁIII… UUUUUÁÁÁÁÁIII… Nossa! O que é isso? Parece o grito estridente e desesperado de uma criança! Será que tem um vizinho desalmado batendo sem parar em seu pimpolho? Não. Escutando com mais atenção, percebo que são gatos namorando. O ruído é infernal. Estão bem próximos da janela de meu quarto.

gatos

            Viro-me para o outro lado, tentando dormir, mas o sono não vem.

            AÔ, AÔ, AÔ, AÔ… Late com tom grosso o cachorro do meu vizinho, que mora nos fundos do meu condomínio. Em seguida escuto um latido estridente: auauauauau. É o latido do poodle que mora no apartamento 204, localizado em frente ao meu. Ele fica desesperado por ficar encerrado o dia e a noite inteiros. Os gatos da vizinha do 202 passam pelo corredor, descem a escadaria, vão para o jardim e ele endoidece. Late na porta, corre para a sacada e da sacada para a sala, freneticamente, continuando seus latidos. Na madrugada, quando os gatos namoram, ele atinge o auge do nervosismo.

cachorro

            Viro-me para o outro lado, tentando dormir, mas não consigo.

            PRÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁKKKK… PUUUUUUMMMMMM… Esse é o barulho da porta da sacada do 101 sendo aberta “delicadamente” às duas horas da manhã. O “PRÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁKKKK” se ouve quando a porta é aberta e empurrada para correr pelo trilho e o “PUUUUUUMMMMMM”, quando a porta chega ao final e bate violentamente no portal de ferro. O barulho se repete ao fechar a porta. Esse é apenas o início porque sei que se a sacada foi aberta é porque o vizinho chegou e, consequentemente, o barulho vem com ele. A partir daí começa a “bateção” (PLAAAAAMMMM) de portas, aberturas das janelas (RRÁÁÁÁÁÁÁCK), gritos e discussão. Nesta madrugada, pelo menos, não ligaram o parelho de som com música em alto volume.

aparelho de som

            Viro-me e reviro-me na cama. Olho o relógio: 2:45 horas.

            Porque as pessoas agem assim? Porque não cumprem as regras do Estatuto? Seria apenas para atormentar aos outros? Ou seria porque não se importam com seus vizinhos? Não sabem viver em paz num condomínio? Ao abrir e fechar as janelas ou sacada, faço isso “beeeeeeeeeeem” devagar, delicadamente, para não incomodar aos outros.

            Quando aqui cheguei, estava arrumando as caixas de utensílios que vieram na mudança e separei uma pequena sacola com lixo, colocando-a na porta do meu apartamento. Assim que terminasse de organizar, iria levar o lixo até a lixeira localizada na frente do condomínio, mas a campanhia tocou em menos de cinco minutos que a sacola estava na porta do apartamento.

lixeira

            – Bom dia. Meu nome é Wilson. Sou seu vizinho do 203 e síndico deste condomínio. Não sei se no momento em que a senhora alugou esse apartamento, a imobiliária não lhe deu cópia do estatuto, mas é proibido colocar lixo na porta. – disse-me educadamente.

            Sem esperar o final da frase, rapidamente agachei-me, peguei a sacola com o lixo e desci correndo a escada, desesperadamente, até a lixeira. Quando retornei, envergonhada por não estar cumprindo as regras do estatuto e por ter sido chamada a atenção logo no meu primeiro dia de moradia, o Sr. Wilson estava parado no mesmo lugar, aguardando-me com uma cópia do estatuto nas mãos, sorrindo feliz.

síndico

            – Sr. Wilson, gostaria de comunicar-lhe que não aluguei este apartamento; eu o comprei. Informo-lhe também que, até o momento, não me foi passada cópia do estatuto. Lixo? Que lixo? O senhor pode ter certeza de que não está vendo e nunca verá lixo na frente da porta do meu apartamento. – disse-lhe sorrindo agradecida pela cópia e pelo conselho.

lixeira

            Portanto, já faz cinco anos que cumpro as regras do estatuto:

            . Não colocar lixo na porta.

            . Não ter cães e gatos no apartamento por causa do barulho e mau cheiro das fezes.

            . Não fazer barulho das 22 às 8 horas.

            . Não estender roupas na sacada.

roupas na sacada

            Neste condomínio existem 32 apartamentos. A maioria dos moradores não cumpre as regras: têm cães, gatos, barulho, roupas na sacada (fica parecendo um cortiço). Meu enteado e sua esposa moram num apartamento no bairro São Francisco e têm um cachorro, mas lá as regras são diferentes: pode-se passear com o cão, mas este deve sair do apartamento, entrar no elevador ou nas escadas, chegar ao jardim até a Portaria, sempre no colo de seu dono! Somente no lado de fora do condomínio é que o cão poderá fazer suas necessidades fisiológicas e dar seu passeio.  Mesmo no lado de fora do condomínio, os donos levam um saquinho e vão recolhendo as fezes do animal.

recolhendo fezes do cão

            Mas como vim parar nessa crônica sobre condomínios se eu estava na crônica “RUÍDOS DA NOITE”? Voltando aos RUÍDOS DA NOITE, o carro e a moto se afastaram, o namoro entre os gatos terminou, os cães silenciaram e os moradores do 101 foram dormir. Somente restou o silêncio e os grilos: CRI – CRI – CRI – CRI – CRI. Agora seu que poderei dormir.

            Durmam em paz e boa noite!

homem na cama

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro da Academia de Letras do Brasil/MS, ocupando a cadeira 18,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos romances MOSAICO e a MULHER QUE RI,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo)

 

Nota da Autora:

– Texto escrito em 2010.

– Publicado no romance MOSAICO (Editora Gibim, 2011)

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