O DISCURSO QUE NÃO FIZ

Postado em Atualizado em

– NÃO SOU DE CAMPO GRANDE! – grito ao microfone. Coloco a mão esquerda na orelha esquerda tentando ouvir alguma objeção.

E continuo: – TAMBÉM NÃO SOU DO MATO GROSSO DO SUL! – grito novamente. Mão direita na orelha direita. Nada. Silêncio total.

– Alguma objeção? – pergunto agora em tom de voz menos alterado.

– Certamente alguém dentre vocês deve estar pensando mais ou menos assim: “- O que essa coroa, magricela e exibida está fazendo aqui então?!”.

Eu respondo, senhoras e senhores. Estou aqui por dois motivos. O primeiro deles: porque recebi o convite de um ilustre membro desta nobre Academia de Letras do Brasil – seccional de Campo Grande, para dela participar! O segundo motivo: porque aqui em Campo Grande moro há quase trinta anos; aqui vim morar com minha família vinda do Rio Grande do Sul, aqui estudei (fiz o curso de Letras na antiga Fucmt, hoje UCDB), aqui trabalho (sou funcionária pública estadual), aqui me casei com o pontaporanense Geraldo Fontana, aqui vivo e aqui ES-CRE-VO!

Nasci numa pequena cidade bem ao sul do RS chamada Rio Grande. Alguém conhece? Levante a mão, por gentileza quem já ouviu falar nessa cidade. Certo. Obrigada. Podem baixar as mãos. Agora levante a mão, por gentileza, quem já esteve em Rio Grande? Certo. Podem baixar. Obrigada.

Na escola sempre aprendi que a população de Rio Grande era de 200.000 habitantes. Recentemente fiz uma consulta ao IBGE e no último censo foi detectada uma população de 170.000 habitantes. Possui o único porto marítimo do Estado; possui a maior praia em extensão do mundo: Praia do Cassino. Alguns são contrários a essa informação, mas está registrado no Guinness, o livro dos recordes.

Ah como gostava de chegar perto das docas e sentir aquele cheirinho de peixe que, para alguns, é insuportável, mas para mim tem cheirinho de infância e de boas recordações. Ao lado das docas, fica a Biblioteca Pública para onde sempre eu corria quando havia alguma folga da escola e sempre pedia o mesmo livro: Dom Casmurro. Não dava tempo de ler muitas páginas e ficava sempre com aquela vontade de quero mais. A bibliotecária até já me conhecia: “- Vai querer ler outro ou vai continuar com Dom Casmurro?”. Respondia-lhe que tão logo terminasse a leitura do Dom Casmurro iria querer outro do Machado de Assis (porque gostava muito de suas descrições dos personagens da época) ou do José de Alencar (por causa de sua temática indianista), ou Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa ou Jorge Amado e assim por diante.

Lá em Rio Grande tive grandes mestres e somados ao estímulo que recebi de meus pais, logo tombei para o lado da literatura e comecei o gosto pela escrita já aos doze anos de idade. Escrevi poesias, contos e livros, o que me levou a receber o convite do meu mestre Professor Marcos Costa Filho a ser membro correspondente da Academia Riograndina de Letras, e dela faço parte, com muita honra.

Aos dezoito anos comecei a fazer faculdade de Letras na Furg – Fundação Universidade de Rio Grande. Nessa época, meu pai veio para Campo Grande tentar melhorar sua vida profissional e, consequentemente, sua vida familiar, aceitando um convite para trabalhar como contador no Hotel Jandaia. Veio, conheceu o ambiente, encontrou uma casa agradável para trazer sua família, localizada na Avenida Mato Grosso, no Bairro Coophafé e assim fez.

Ao chegar a Campo Grande, procurei uma universidade federal para fazer a transferência do meu Curso de Letras, mas somente ofereciam curso diurno e eu precisava trabalhar durante o dia e estudar a noite. Encontrei o que precisava na Fucmt, fiz a transferência, estudei e me formei em 1986.

Na Fucmt tive excelentes mestres como Ildebrando Campestrini, Sérgio Auer, Professora Glorinha, Professora Thiê, entre outros, assim como colegas que se destacam na vida acadêmica literária: Raquel Naveira, Guimarães Rocha, etc.

Se me perguntassem qual curso gostaria de fazer, responderia sem pestanejar: Letras novamente!

Atualmente sou servidora do Tribunal de Justiça do Estado de MS e nas horas vagas escrevo contos, crônicas, poesias e preparo o PCC, mais um livro a ser lançado.

Parabéns a todos os diplomados!

Desculpas peço aos ilustres membros desta nobre casa pelas palavras informais deste texto; deixo claro que sou novata, mas tenho interesse em aprender.

Agradeço ao honroso convite e a presença de todos!

Os aplausos explodem!

O chefe do cerimonial aproxima-se a fim de dar prosseguimento ao evento. Antes de entregar-lhe o microfone, grito:

– OBRIGADA PAI! OBRIGADA MÃE! VALEU!

As pessoas aplaudem de pé.

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS,

membro correspondente da Academia Riograndina de Letras,

autora dos romances MOSAICO e a MULHER QUE RI,

formada em Letras, contista da Revista Cultura do Mundo)

 eu-e-o-livro.jpg

Anúncios

Um comentário em “O DISCURSO QUE NÃO FIZ

    AntimidiaBlog disse:
    15 de novembro de 2014 às 12:50 pm

    Republicou isso em reblogador.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s