LONGE DOS OLHOS, PERTO DO CORAÇÃO

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praia do cassino

 

            Dezembro de 1999. Verão. Praia do Cassino. Lugar gostoso… Tranquilo… Com poucas ruas asfaltadas e muitas ruas de areia. Areia branca igual a areia da praia. Com o sol quente, essa areia da rua fica muito fofa; com água da chuva, areia compactada, torna-se ótima para caminhar. Esse lugarejo separa-se do mar por muitas dunas de areias brancas e quentes.

            Meus tios Dilma e Sérgio ficaram na cidade de Rio Grande-RS e cederam a casa da praia para ficarmos por uns trinta dias: eu, meus pais, minha irmã caçula Sabrina e minha amiga jornalista Maristela.

            A casa era novíssima; recém-construída com tijolos à vista (ou tijolos aparentes como se diz por aí); com portas e janelas de madeira ainda sem pintura; parte hidráulica e elétrica toda nova; pouca mobília. Ficava numa ruma sem asfalto, tendo na frente uma escadaria com cerca de dez degraus para chegar ao portão de entrada (também de madeira sem pintura). Ao lado da escada, um gramado também novo e uma diminuta muda de limoeiro. Era ideia de minha tia chimarrear a sombra desse limoeiro num futuro breve. A casa era pequena, mas aconchegante. Uma sala com o essencial: um jogo de sofá de cinco lugares e uma televisão. Três quartos. Cozinha e banheiro.

            Num dos quartos, ficamos eu e minha amiga Maristela. Havia duas camas de solteiro, com roupas de cama novas. Lembro-me das lindas colchas estampadas nas cores vermelho escuro e branco. Não havia roupeiro então improvisamos com uma arara feita com uma taquara e cabides. Ficou lindo!

roupeiro

            Enquanto nos instalávamos, assistimos na televisão uma matéria sobre um jornalista famoso que estava veraneando nesta mesma Praia do Cassino. Maristela ficou super entusiasmada porque o F.F. foi seu colega de turma e ela teve uma “quedinha” por ele.

            Combinamos todos, então, de irmos à noite ao melhor barzinho da praia, onde certamente iríamos encontrá-lo e onde eu e minha irmã poderíamos rever velhos amigos do tempo da nossa infância e adolescência. Meu pai não quis ir. Preferiu ficar em casa assistindo programas na televisão.

            Começamos a nos arrumar para sair. Maristela colocou sandálias vermelhas de salto alto, calça e blusa vermelhas bem justas e, por cima, uma blusa folgada na cor bege. A combinação não ficou muito boa, mas ela ficou linda. Com seus cabelos claros e aquele sorrisão com dentes branquíssimos, estava perfeita. Seus olhos brilhavam de euforia porque iria reencontrar o F.F. De minha irmã lembro-me vagamente que estava de calças jeans justas, sapatos baixos e uma blusinha (não recordo a cor). Tanto faz a cor. Ela estava maravilhosa! Quando se é jovem e linda qualquer roupa nos cai bem. Minha mãe estava com sapatos pretos baixos, calça preta e uma linda blusa estampada, muito parecida com as colchas que enfeitavam nossas camas (hehehe). Eu vestia calça jeans, sapatos baixos e uma t-shirt na cor pink.

blusa rosa

            O bar ficava a uns quatro quarteirões da casa; então fomos a pé, “amassando barro” como diz minha afilhada Milena. Cantarolando… Felizes… O bar era uma graça… Decoração rústica… Bom som… Música ao vivo. Perambulei por ali, mas não vi ninguém conhecido. Já era bem tarde quando avistei a Maristela conversando animadamente com F.F., bem próximos um do outro; o rosto da Maris era só sorriso. Vi minha irmã conversando com um garoto do tempo da escola e minha mãe conversava com um senhor de cabelos grisalhos.

            Fui para o balcão do bar… Tomei duas cervejas e me deu fome. Como já estava bem tarde, resolvi ir embora e lanchar em casa. Comecei a caminhar o percurso de retorno para casa quando me lembrei de dois fatos e exclamei para mim mesma:

            1º fato – Droga! Nem avisei “meu povo” que estava indo embora. Elas irão me procurar e não me encontrarão!

            2º fato – Deveríamos ter marcado um ponto e um horário de encontro, a fim de retornarmos todas juntas!

            Era tarde! Já estava aproximando-me da nossa simpática casa.

            Em frente da casa, ao pé da escada, estava uma morena cor de jambo, magra, cabelos pretos e desalinhados, blusa branca de alcinhas, sem soutien, shorts pretos e descalça. Achei estranho porque já era madrugada! O que ela estaria fazendo ali? Estava esperando-me. Brava! Muito brava! Descontrolada!

mulher dor

           Colocou suas mãos em meus ombros e sacudiu-me gritando com sotaque gaúcho:

            – Sem vergonha! Agarrada com namorado de outra! Aquele homem é meu, guria! Todo mundo te viu no bar com meu homem!

            Fiquei receosa que seus gritos acordassem meu pai e a vizinhança. Então, empurrei-a também com voz baixa, mas enérgica:

            – Olha aqui, moça! Eu não estava com homem algum! Pode perguntar para qualquer pessoa no bar! E se alguém disse que era uma moça com blusa pink, pode estar certa então de que havia mais de uma moça com blusa pink, porque EU NÃO ERA!!!!

            Dei-lhe as costas e fui subindo os dez degraus da escada. No meio dela, voltei-me e detonei:

            – E tem mais, moça! Aí atrás devem estar vindo minha mãe, minha irmã e uma amiga. Pergunte a elas se eu estava com alguém! BOA NOITE!

            Abri o portão de madeira ainda não pintado e fui em silêncio, na ponta dos pés – para não acordar meu pai, até o fundo da casa. Entrei pela porta da cozinha e lá fiquei lanchando até “meu povo” chegar.

pão com manteiga

            Em seguida escutei vozes e fui espiar. Era a tal morena magrinha conversando com a Sabrina, o amigo dela, a Maristela e o jornalista F.F. Esclareceram tudo e a morena foi embora, cabisbaixa. Certamente pensava: “Com quem estava meu moreno?”.

            Os rapazes se despediram, as meninas subiram a escadinha e ficamos conversando na cozinha, até que meu pai acordou, perguntando:

            – Onde está sua mãe?

            Olhei para as meninas, indagando por uma resposta da parte delas, já que eu não sabia responder. Responderam que a viram conversando com um senhor magro e grisalho, mas que já deveria estar chegando.

            Meu pai ficou enciumado… Triste… Não gostou de saber que ela ficara no bar conversando com um desconhecido…

            Passados poucos minutos, minha mãe apareceu na porta da cozinha. O senhor magro e grisalho estava com dela. Apertou sua mão para despedir-se e fez menção de entrar para cumprimentar meu pai também. Intrometi-me entre os dois e falei baixinho em seu ouvido:

            – É melhor o senhor ir embora… Meu pai está nervoso… Outro dia o senhor o cumprimenta.

vovo 1

            Depois que o homem saiu, virei-me para meu pai e perguntei:

            – Puxa vida, paizinho! Isso é jeito de tratar um padre???

            – Padre??? – perguntou ele.

            – Sim. Padre. Vi a batina dele. – respondi.

            Nisso, minha mãe resolveu explicar que encontrou o padre “Fulano” no bar, que estudara no seminário com meu pai; conversaram sobre meu pai, os filhos, os netos…; marcaram de fazer um churrasco-surpresa para meu pai para se reencontrarem. Quando ela percebeu, as meninas já haviam saído do bar. Então, para não ir sozinha, o padre “Fulano” acompanhou-a até a casa.

            Após os esclarecimentos, tudo ficou em paz e fomos dormir.

            Pela manhã, a vizinhança estava alvoroçada. Corria um zum-zum-zum de que o mar, onde não tinham dunas para detê-lo, havia subido e chegara até as casas da orla.

duna

            Resolvemos verificar esse fenômeno “in loco”. Meu pai não foi. Chegando lá, vimos que não era boato. O mar havia invadido toda a praia. Fiquei encostada num muro de uma casa, com os pés dentro do mar. “Meu povo” resolveu entrar no mar. Foram entrando… Entrando…

            – Mãe! – eu gritei. – Tá com lodo ou terra firme?

            – Tá com lodo! – respondeu-me ela.

            – Mãe! Daqui a pouco não dará mais pé! A senhora sabe pelo menos nadar o estilo cachorrinho?

            – Cachorrinho eu sei!

            – Então tá. – respondi tranquila.

            Andaram mais alguns passos e, para meu alívio, resolveram voltar até onde eu estava aguardando.

            Também chegaram o amigo de minha irmã e o jornalista F.F. Ficaram namorando um pouco enquanto eu e minha mãe conversávamos.

abraço

            Escutei uns ruídos estranhos. Era minha tartaruga Fátima, fazendo barulho no tanque da lavanderia do meu apartamento.

            Acordei. Foi tudo um sonho!

            A praia foi um sonho!

            Está longe dos olhos, mas perto do coração!

dunas_1

 

 

Simone Possas Fontana

(escritora gaúcha de Rio Grande-RS, membro correspondente da

Academia Riograndina de Letras, autora dos romances

MOSAICO e A MULHER QUE RI)

 

 

Minhas Anotações:

Simone

– Conto escrito em outubro/2009

– Publicado no livro MOSAICO (Gibim, 2011)

 

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